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Juçara Rosolen é empresária, escritora e atual Presidente do Lions Clube de Nova Odessa

Coluna Olhar de Dentro

O recorde que ninguém comemora: nunca tantas empresas pediram socorro à Justiça

Existe um recorde brasileiro que não rende comemoração nenhuma. Em 2025, o país registrou o maior número de empresas em recuperação judicial de toda a série histórica medida pela Serasa Experian: foram 977 processos abertos no ano, envolvendo 2.466 empresas, um crescimento de 13% em relação ao ano anterior. E 2026 começou ainda pior, com o primeiro trimestre batendo novo recorde e mais de uma centena de pedidos chegando à Justiça a cada mês.

Para quem não é do meio, vale explicar em palavras simples: a recuperação judicial é o último recurso de uma empresa que não consegue mais pagar as suas contas. Ela pede à Justiça um fôlego, um plano para renegociar as dívidas e tentar sobreviver sem fechar as portas. Ou seja, cada um desses números é uma empresa que chegou ao limite. E o retrato do endividamento é ainda mais amplo: em janeiro deste ano, 8,7 milhões de CNPJs estavam negativados no país, com dívida média de mais de R$ 23 mil.

As causas não são mistério. A taxa de juros está no patamar mais alto em quase vinte anos, e juros alto significa dívida que cresce como bola de neve para quem precisou de crédito para girar o negócio. Some-se a isso o endividamento das famílias: consumidor com o orçamento comprometido compra menos, e quando a venda cai, o caixa da empresa não gira. Fecha-se um círculo cruel: a dívida encarece de um lado e a receita encolhe do outro. E o sufoco não escolhe setor: agropecuária, serviços, comércio e indústria dividem, quase por igual, a fila da recuperação judicial.

E aqui, com o respeito de sempre, mas com a franqueza de quem empreende há décadas, é preciso dizer com todas as letras: o governo precisa fazer a sua parte. Juros tão altos, por tanto tempo, são o remédio amargo de uma inflação que nasce, em boa medida, de contas públicas que não fecham. Enquanto isso, quem produz segue carregando uma das cargas tributárias mais pesadas do mundo, com pouca previsibilidade e burocracia de sobra. Não dá para exigir tanto de quem gera emprego e devolver tão pouco em condições de trabalhar. Enquanto a conta não fecha em Brasília, quem fecha as portas é o pequeno empresário da nossa esquina.

E quando uma empresa quebra, não é só o dono que perde. São os funcionários que ficam sem salário, os fornecedores que não recebem, as famílias que perdem o seu sustento. Em uma região industrial e empreendedora como a nossa, cada negócio que resiste é um pedaço da cidade que segue de pé.

Ao empresário que está sentindo os reflexos, deixo um conselho: não espere a água chegar ao pescoço. Renegocie cedo, converse com um contador, procure o apoio do Sebrae e das associações comerciais, corte gastos desnecessários. Separe contas pessoais das empresariais. A recuperação judicial é remédio de última hora, e quase sempre há caminhos antes dela.

Que esses recordes tristes sirvam de alerta para quem governa e de chamado de resistência para quem empreende. O Brasil que trabalha merece, no mínimo, condições de continuar trabalhando.

E você, empresário ou consumidor, já sentiu na sua rotina os efeitos dessa engrenagem de juros e dívidas? O que acha que precisa mudar primeiro?

Juçara Rosolen é mãe, cristã, empreendedora, palestrante e escritora. Juçara é formada em Pedagogia, Letras e Direito. Proprietária e fundadora do Grupo Aposerv, que há mais de 17 anos se dedica aos serviços previdenciários administrativos. É ex-presidente da ACINO e atual Presidente do Lions Clube de Nova Odessa

 

 

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