Coluna Olhar de Dentro
Chegamos a agosto, o mês dos ventos
Tem algo de especial no ar quando agosto chega. O vento
muda, ganha força e constância, balança as árvores e varre o céu, deixando
aquele azul limpo de inverno que a gente conhece bem. E, como acontece todos os
anos, basta o vento firmar para o espetáculo começar: as pipas voltam a colorir
o céu da cidade. Nos bairros, campinhos, nas ruas mais abertas, lá estão elas,
dançando no alto, cada uma com seu jeito, suas cores e seu piloto orgulhoso lá
embaixo, segurando a linha.
A pipa é daquelas brincadeiras que atravessam gerações sem
perder a graça. O avô que ensina o neto a fazer a rabiola, o pai que lembra da
pipa da sua infância enquanto ajuda o filho a soltar a dele, a disputa saudável
para ver qual sobe mais alto. Num tempo em que as crianças passam horas diante
das telas, ver uma pipa no céu é quase um ato de resistência: é brincadeira
barata, ao ar livre, que ensina física sem livro, exige paciência e ainda junta
a família olhando para cima. Que agosto nos traga muitas delas.
Mas é justamente por amar essa tradição que precisamos falar
de um assunto sério, porque há um vilão que transforma a brincadeira mais
poética do inverno em tragédia: o cerol. A mistura de cola com vidro moído, e a
sua versão ainda mais cruel, a chamada linha chilena, converte a linha da pipa
em uma lâmina invisível. E lâminas cortadas pelo vento não escolhem alvo: já
feriram e mataram motociclistas e ciclistas em rodovias e avenidas por todo o
país. Não por acaso, o uso dessas linhas é proibido por lei no estado de São
Paulo. Não existe pipa que justifique uma vida em risco: cerol não é esperteza,
e sim, crime.
Os cuidados, felizmente, são simples. Linha comum, sempre.
Lugar aberto e longe do trânsito, como campos e praças, nunca em cima de lajes
sem proteção, de onde tantas quedas graves acontecem. E distância total da rede
elétrica: pipa enroscada em fio não se resgata de jeito nenhum, nem com vara,
nem com pedra, nem subindo no poste, porque o choque pode ser fatal. Perdeu
para o fio ou vento: paciência, faz parte do jogo, e amanhã se solta outra.
Aos pais e avós, fica o convite dobrado: soltem pipa com as
crianças, mas ensinem junto as regras de segurança. A melhor tradição é aquela
que se passa adiante completa, com a alegria e com o cuidado. Assim, o céu de
agosto segue sendo o que sempre foi por aqui: um lugar de festa, não de perigo.
E você, quanto tempo faz que não solta uma pipa? Que tal aproveitar os ventos deste mês para ensinar essa alegria, com segurança, para uma criança da sua família?
Juçara Rosolen é mãe, cristã, empreendedora, palestrante e
escritora. Juçara é formada em Pedagogia, Letras e Direito. Proprietária e
fundadora do Grupo Aposerv, que há mais de 17 anos se dedica aos serviços
previdenciários administrativos. É ex-presidente da ACINO e atual Presidente do
Lions Clube de Nova Odessa.

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