Coluna Nutrição Além do Prato
Nem tudo é culpa do cortisol
Cansaço, dificuldade para emagrecer, vontade de comer doce,
sono ruim, ansiedade, barriga mais volumosa, rosto inchado. Se você passar
algum tempo nas redes sociais, provavelmente encontrará uma explicação capaz de
reunir todos esses sintomas em uma única palavra: cortisol. Surgiram o “rosto
de cortisol”, a “barriga de cortisol”, os protocolos para baixar cortisol e até
os chamados “detox de cortisol”. E, quase sempre, depois de apresentar o
problema, aparece também alguma solução: um suplemento, um chá, uma dieta, uma
rotina específica ou um protocolo capaz de colocar o hormônio novamente “no
lugar”.
O cortisol, no entanto, não é uma invenção da internet e
muito menos um hormônio que deveríamos simplesmente tentar reduzir. Produzido
pelas glândulas suprarrenais, ele participa de funções fundamentais para a
nossa sobrevivência. Ajuda a regular a glicose, a pressão arterial, o
metabolismo e a resposta do organismo ao estresse. Sua concentração também
varia naturalmente ao longo do dia e responde a diferentes situações. O
problema, portanto, não é falar sobre cortisol. É transformar um mecanismo
fisiológico real em uma explicação universal para sintomas que podem ter
inúmeras causas.
Cansaço é um ótimo exemplo. Uma pessoa pode estar cansada
porque dorme pouco, porque sua alimentação não está adequada, porque treina
além da capacidade de recuperação, porque utiliza determinados medicamentos ou
por uma série de condições de saúde que precisam ser investigadas. Dificuldade
para emagrecer também não possui uma única explicação. Alterações de apetite,
ingestão energética, atividade física, sono, medicamentos, ambiente,
comportamento e condições clínicas podem participar desse processo. O mesmo
raciocínio vale para inchaço, alterações no sono e vontade de comer
determinados alimentos.
É justamente aí que mora o perigo de transformar sintomas
comuns em autodiagnóstico. Quando praticamente qualquer desconforto pode ser
apresentado como sinal de “cortisol alto”, fica muito fácil olhar para uma
lista nas redes sociais e se reconhecer nela. Afinal, quem nunca passou por uma
fase de cansaço, dormiu mal, percebeu o rosto mais inchado ou teve dificuldade
para controlar a vontade de comer alguma coisa?
Alterações persistentes e clinicamente relevantes do
cortisol realmente existem. A síndrome de Cushing, por exemplo, ocorre diante
de exposição excessiva ao cortisol por tempo prolongado e pode provocar
alterações importantes no organismo. Mas seu diagnóstico não é feito olhando
para o formato do rosto ou marcando sintomas em uma publicação do Instagram.
Ele envolve história clínica, exame físico e testes laboratoriais específicos.
A própria Endocrine Society destaca que sintomas como obesidade, depressão,
diabetes, hipertensão e alterações menstruais podem ocorrer tanto em pessoas
com hipercortisolismo quanto na população geral, justamente por serem pouco
específicos quando analisados isoladamente.
Talvez seja exatamente essa inespecificidade que torne o
discurso tão atraente nas redes sociais. Uma explicação simples oferece uma
sensação imediata de resposta. “Agora eu entendi o que tenho.” E, quando essa
explicação vem acompanhada de palavras como hormônio, metabolismo e inflamação,
ganha ainda uma aparência científica. O problema é que usar termos científicos
não torna uma conclusão necessariamente científica.
Também existe uma diferença importante entre reconhecer que
o estresse crônico pode afetar a saúde e concluir que qualquer manifestação do
corpo seja consequência direta de “cortisol alto”. Sono, comportamento
alimentar, atividade física, saúde mental e diferentes sistemas fisiológicos se
relacionam de maneira complexa. Reduzir toda essa interação a um único hormônio
pode parecer didático, mas frequentemente significa retirar justamente aquilo
que mais importa: o contexto.
Isso não significa ignorar sintomas. Muito pelo contrário.
Se alterações persistem, pioram ou aparecem acompanhadas de outros sinais, elas
merecem investigação adequada. O que não faz sentido é decidir primeiro qual é
o diagnóstico e depois tentar encaixar todos os sintomas dentro dele. Em
medicina e nutrição, investigar deveria funcionar no sentido contrário:
observar o conjunto, levantar hipóteses e, quando necessário, utilizar exames
apropriados para confirmá-las ou descartá-las.
Há ainda uma pergunta que vale fazer sempre que uma
explicação de saúde viraliza: o que acontece depois que você acredita nela? Se
imediatamente surge algo para comprar, um teste sem indicação, um suplemento,
um chá ou um protocolo, talvez seja prudente olhar para a promessa com um pouco
mais de cuidado. Isso não significa que todo produto seja inútil ou que toda
orientação seja equivocada. Significa apenas que transformar sintomas
inespecíficos em um problema específico é uma maneira bastante eficiente de criar
também uma solução específica.
O cortisol importa. O estresse importa. E alterações
hormonais merecem ser levadas a sério. Justamente por isso, talvez devêssemos
tratá-las com mais rigor, e não menos.
Quando tudo vira cortisol, deixamos de perguntar sobre sono,
alimentação, rotina, medicamentos, treinamento, comportamento e saúde. Uma
resposta aparentemente completa pode acabar interrompendo a investigação antes
mesmo de ela começar. Ciência não é encontrar um nome sofisticado capaz de
explicar tudo o que sentimos. É ter disposição para investigar o contexto antes
de afirmar qual é o problema.
E talvez seu corpo não precise de mais um protocolo para
“controlar o cortisol”. Talvez precise, primeiro, que parem de tratar sintomas
como se já fossem um diagnóstico.
Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela
UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua
com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre
com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus
textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real.
Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.
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