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Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica e atua em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida

Coluna Nutrição Além do Prato

Nem tudo é culpa do cortisol

Cansaço, dificuldade para emagrecer, vontade de comer doce, sono ruim, ansiedade, barriga mais volumosa, rosto inchado. Se você passar algum tempo nas redes sociais, provavelmente encontrará uma explicação capaz de reunir todos esses sintomas em uma única palavra: cortisol. Surgiram o “rosto de cortisol”, a “barriga de cortisol”, os protocolos para baixar cortisol e até os chamados “detox de cortisol”. E, quase sempre, depois de apresentar o problema, aparece também alguma solução: um suplemento, um chá, uma dieta, uma rotina específica ou um protocolo capaz de colocar o hormônio novamente “no lugar”.

 O cortisol, no entanto, não é uma invenção da internet e muito menos um hormônio que deveríamos simplesmente tentar reduzir. Produzido pelas glândulas suprarrenais, ele participa de funções fundamentais para a nossa sobrevivência. Ajuda a regular a glicose, a pressão arterial, o metabolismo e a resposta do organismo ao estresse. Sua concentração também varia naturalmente ao longo do dia e responde a diferentes situações. O problema, portanto, não é falar sobre cortisol. É transformar um mecanismo fisiológico real em uma explicação universal para sintomas que podem ter inúmeras causas.

 Cansaço é um ótimo exemplo. Uma pessoa pode estar cansada porque dorme pouco, porque sua alimentação não está adequada, porque treina além da capacidade de recuperação, porque utiliza determinados medicamentos ou por uma série de condições de saúde que precisam ser investigadas. Dificuldade para emagrecer também não possui uma única explicação. Alterações de apetite, ingestão energética, atividade física, sono, medicamentos, ambiente, comportamento e condições clínicas podem participar desse processo. O mesmo raciocínio vale para inchaço, alterações no sono e vontade de comer determinados alimentos.

 É justamente aí que mora o perigo de transformar sintomas comuns em autodiagnóstico. Quando praticamente qualquer desconforto pode ser apresentado como sinal de “cortisol alto”, fica muito fácil olhar para uma lista nas redes sociais e se reconhecer nela. Afinal, quem nunca passou por uma fase de cansaço, dormiu mal, percebeu o rosto mais inchado ou teve dificuldade para controlar a vontade de comer alguma coisa?

Alterações persistentes e clinicamente relevantes do cortisol realmente existem. A síndrome de Cushing, por exemplo, ocorre diante de exposição excessiva ao cortisol por tempo prolongado e pode provocar alterações importantes no organismo. Mas seu diagnóstico não é feito olhando para o formato do rosto ou marcando sintomas em uma publicação do Instagram. Ele envolve história clínica, exame físico e testes laboratoriais específicos. A própria Endocrine Society destaca que sintomas como obesidade, depressão, diabetes, hipertensão e alterações menstruais podem ocorrer tanto em pessoas com hipercortisolismo quanto na população geral, justamente por serem pouco específicos quando analisados isoladamente.

 Talvez seja exatamente essa inespecificidade que torne o discurso tão atraente nas redes sociais. Uma explicação simples oferece uma sensação imediata de resposta. “Agora eu entendi o que tenho.” E, quando essa explicação vem acompanhada de palavras como hormônio, metabolismo e inflamação, ganha ainda uma aparência científica. O problema é que usar termos científicos não torna uma conclusão necessariamente científica.

 Também existe uma diferença importante entre reconhecer que o estresse crônico pode afetar a saúde e concluir que qualquer manifestação do corpo seja consequência direta de “cortisol alto”. Sono, comportamento alimentar, atividade física, saúde mental e diferentes sistemas fisiológicos se relacionam de maneira complexa. Reduzir toda essa interação a um único hormônio pode parecer didático, mas frequentemente significa retirar justamente aquilo que mais importa: o contexto.

 Isso não significa ignorar sintomas. Muito pelo contrário. Se alterações persistem, pioram ou aparecem acompanhadas de outros sinais, elas merecem investigação adequada. O que não faz sentido é decidir primeiro qual é o diagnóstico e depois tentar encaixar todos os sintomas dentro dele. Em medicina e nutrição, investigar deveria funcionar no sentido contrário: observar o conjunto, levantar hipóteses e, quando necessário, utilizar exames apropriados para confirmá-las ou descartá-las.

 Há ainda uma pergunta que vale fazer sempre que uma explicação de saúde viraliza: o que acontece depois que você acredita nela? Se imediatamente surge algo para comprar, um teste sem indicação, um suplemento, um chá ou um protocolo, talvez seja prudente olhar para a promessa com um pouco mais de cuidado. Isso não significa que todo produto seja inútil ou que toda orientação seja equivocada. Significa apenas que transformar sintomas inespecíficos em um problema específico é uma maneira bastante eficiente de criar também uma solução específica.

 O cortisol importa. O estresse importa. E alterações hormonais merecem ser levadas a sério. Justamente por isso, talvez devêssemos tratá-las com mais rigor, e não menos.

 Quando tudo vira cortisol, deixamos de perguntar sobre sono, alimentação, rotina, medicamentos, treinamento, comportamento e saúde. Uma resposta aparentemente completa pode acabar interrompendo a investigação antes mesmo de ela começar. Ciência não é encontrar um nome sofisticado capaz de explicar tudo o que sentimos. É ter disposição para investigar o contexto antes de afirmar qual é o problema.

 E talvez seu corpo não precise de mais um protocolo para “controlar o cortisol”. Talvez precise, primeiro, que parem de tratar sintomas como se já fossem um diagnóstico.

 Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real. Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

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