Coluna Nutrição Além do Prato
A nova pirâmide alimentar dos Estados Unidos e os desafios da interpretação
nutricional
Nos últimos dias, uma nova versão da pirâmide alimentar dos Estados Uni dos
ganhou destaque nas redes sociais. A atualização não se limitou a mudanças
estéticas. O formato foi alterado, as sim como a ordem e a hierarquia dos
grupos alimentares, com maior desta que visual para carnes vermelhas e
laticínios integrais. Esse tipo de mudança não é neutro, porque a pirâmide é
uma ferramenta de comunicação direta com a população.
Quando o desenho se modifica, a mensagem percebi da pelo consumidor também
muda, o que pode induzir interpretações equivocadas sobre o que deve compor a
base da alimentação cotidiana. Por isso, é fundamental ir além da imagem e
analisar o texto completo das diretrizes alimentares.
No documento oficial, permanece a recomendação de priorizar alimentos in natura
ou minimamente processados, incentivar o consumo de frutas, verduras, legumes e
leguminosas e diferenciar carboidratos refinados de cereais integrais, que
seguem sendo indicados como parte importante de um padrão alimentar saudável. A
ciência nutricional que embasa essas diretrizes associa o consumo de grãos
integrais e fibras à redução do risco de doenças crônicas.
No entanto, essa ênfase presente no texto não aparece com a mesma clareza na
representação visual, o que pode gerar leituras simplificadas ou distorcidas.
Outro ponto central das diretrizes é a recomendação de que a ingestão de
gordura saturada não ultrapasse 10% do valor calórico diário.
Em uma dieta de aproximadamente 2.000 calorias, isso equivale a cerca de 22
gramas de gordura saturada por dia. Para efeito de comparação, uma porção de
carne bovina magra de 100 gramas pode fornecer em torno de cinco a seis gramas
de gordura saturada.
Quando alimentos ricos nesse tipo de gordura recebem grande destaque visual,
sem contextualização adequada, o risco é naturalizar um consumo acima do
recomendado. Também chama atenção o destaque dado às proteínas de origem
animal. Elas são fontes importantes de nutrientes e fazem parte de muitos
padrões ali mentares saudáveis, mas não devem ser tratadas como únicas ou
centrais em todas as refeições.
As próprias diretrizes reconhecem a relevância das proteínas de origem vegetal,
como feijão, lentilha, grão-de-bico e outras leguminosas, que oferecem
proteínas as sociadas a fibras, vitaminas e minerais, além de menor teor de
gordura satura da. Do ponto de vista da saúde coletiva, incentivar a
diversidade de fontes proteicas amplia benefícios nutricionais e favorece
escolhas mais equilibradas.
Há, sem dúvida, avanços importantes no texto das diretrizes que precisam ser
reconhecidos. O documento reforça a redução do consumo de alimentos
ultraprocessados e de açúcares adicionados, além do incentivo ao consumo
regular de frutas, verduras e legumes. Essas recomendações estão alinhadas com
evidências robustas sobre prevenção de doenças crônicas e promoção da saúde ao
longo da vida.
Ao mesmo tempo, é necessário manter uma postura crítica em relação às bases
científicas utilizadas na construção dessas recomendações. Parte dos estudos e
das bases de dados que subsidiam essas diretrizes envolve pesquisadores e
painéis com vínculos financeiros com setores da indústria de alimentos, como
carne e laticínios.
Isso não invalida automaticamente as orientações propostas, mas reforça a
importância da transparência, da análise crítica das evidências e da leitura
cuidadosa dos conflitos de interesse que podem influenciar prioridades e
interpretações.
Nesse contexto, vale destacar o Guia Alimentar para a População Brasileira,
reconhecido internacionalmente por sua abordagem baseada em alimentos in natura
ou minimamente processados, pela valorização das práticas culinárias, pelo
respeito ao contexto cultural e pela clareza na comunicação com a população.
O guia brasileiro demonstra que é possível traduzir ciência em orientações
acessíveis, aplicáveis ao cotidiano e alinhadas com a promoção da saúde e da
sustentabilidade. Pirâmides e gráficos são ferramentas úteis de comunicação,
mas não substituem a compreensão crítica da alimentação.
Uma refeição equilibrada pode incluir arroz integral, feijão, legumes variados
e uma fonte moderada de proteína de origem animal ou vegetal. No entanto,
equilíbrio não significa rigidez. A alimentação precisa ser ajusta da às
necessidades individuais, diversificada ao longo do tempo, compatível com a
realidade social e econômica das pessoas, respeitar a disponibilidade dos
alimentos e considerar a sustentabilidade dos sistemas alimentares.
A ciência da nutrição evolui continuamente, e as diretrizes acompanham esse
movimento. Cabe aos profissionais de saúde e à população interpretar essas
recomendações com atenção, questionar, buscar fontes confiáveis e fazer
escolhas alimentares que façam sentido para a saúde, para a cultura e para a
vida real.
Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela UNICAMP, com
especialização em Nutrição Esportiva e obesidade pela USP. Atua com foco em
emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre com base
científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus textos,
defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real. Atende na
clínica Centerclin, em Sumaré.

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