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Marina Rocha Luciano atua com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida

Coluna Nutrição Além do Prato

A nova pirâmide alimentar dos Estados Unidos e os desafios da interpretação nutricional

Nos últimos dias, uma nova versão da pirâmide alimentar dos Estados Uni dos ganhou destaque nas redes sociais. A atualização não se limitou a mudanças estéticas. O formato foi alterado, as sim como a ordem e a hierarquia dos grupos alimentares, com maior desta que visual para carnes vermelhas e laticínios integrais. Esse tipo de mudança não é neutro, porque a pirâmide é uma ferramenta de comunicação direta com a população.

Quando o desenho se modifica, a mensagem percebi da pelo consumidor também muda, o que pode induzir interpretações equivocadas sobre o que deve compor a base da alimentação cotidiana. Por isso, é fundamental ir além da imagem e analisar o texto completo das diretrizes alimentares.

No documento oficial, permanece a recomendação de priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, incentivar o consumo de frutas, verduras, legumes e leguminosas e diferenciar carboidratos refinados de cereais integrais, que seguem sendo indicados como parte importante de um padrão alimentar saudável. A ciência nutricional que embasa essas diretrizes associa o consumo de grãos integrais e fibras à redução do risco de doenças crônicas.

No entanto, essa ênfase presente no texto não aparece com a mesma clareza na representação visual, o que pode gerar leituras simplificadas ou distorcidas. Outro ponto central das diretrizes é a recomendação de que a ingestão de gordura saturada não ultrapasse 10% do valor calórico diário.

Em uma dieta de aproximadamente 2.000 calorias, isso equivale a cerca de 22 gramas de gordura saturada por dia. Para efeito de comparação, uma porção de carne bovina magra de 100 gramas pode fornecer em torno de cinco a seis gramas de gordura saturada.

Quando alimentos ricos nesse tipo de gordura recebem grande destaque visual, sem contextualização adequada, o risco é naturalizar um consumo acima do recomendado. Também chama atenção o destaque dado às proteínas de origem animal. Elas são fontes importantes de nutrientes e fazem parte de muitos padrões ali mentares saudáveis, mas não devem ser tratadas como únicas ou centrais em todas as refeições.

As próprias diretrizes reconhecem a relevância das proteínas de origem vegetal, como feijão, lentilha, grão-de-bico e outras leguminosas, que oferecem proteínas as sociadas a fibras, vitaminas e minerais, além de menor teor de gordura satura da. Do ponto de vista da saúde coletiva, incentivar a diversidade de fontes proteicas amplia benefícios nutricionais e favorece escolhas mais equilibradas.

Há, sem dúvida, avanços importantes no texto das diretrizes que precisam ser reconhecidos. O documento reforça a redução do consumo de alimentos ultraprocessados e de açúcares adicionados, além do incentivo ao consumo regular de frutas, verduras e legumes. Essas recomendações estão alinhadas com evidências robustas sobre prevenção de doenças crônicas e promoção da saúde ao longo da vida.

Ao mesmo tempo, é necessário manter uma postura crítica em relação às bases científicas utilizadas na construção dessas recomendações. Parte dos estudos e das bases de dados que subsidiam essas diretrizes envolve pesquisadores e painéis com vínculos financeiros com setores da indústria de alimentos, como carne e laticínios.

Isso não invalida automaticamente as orientações propostas, mas reforça a importância da transparência, da análise crítica das evidências e da leitura cuidadosa dos conflitos de interesse que podem influenciar prioridades e interpretações.

Nesse contexto, vale destacar o Guia Alimentar para a População Brasileira, reconhecido internacionalmente por sua abordagem baseada em alimentos in natura ou minimamente processados, pela valorização das práticas culinárias, pelo respeito ao contexto cultural e pela clareza na comunicação com a população.

O guia brasileiro demonstra que é possível traduzir ciência em orientações acessíveis, aplicáveis ao cotidiano e alinhadas com a promoção da saúde e da sustentabilidade. Pirâmides e gráficos são ferramentas úteis de comunicação, mas não substituem a compreensão crítica da alimentação.

Uma refeição equilibrada pode incluir arroz integral, feijão, legumes variados e uma fonte moderada de proteína de origem animal ou vegetal. No entanto, equilíbrio não significa rigidez. A alimentação precisa ser ajusta da às necessidades individuais, diversificada ao longo do tempo, compatível com a realidade social e econômica das pessoas, respeitar a disponibilidade dos alimentos e considerar a sustentabilidade dos sistemas alimentares.

A ciência da nutrição evolui continuamente, e as diretrizes acompanham esse movimento. Cabe aos profissionais de saúde e à população interpretar essas recomendações com atenção, questionar, buscar fontes confiáveis e fazer escolhas alimentares que façam sentido para a saúde, para a cultura e para a vida real.

Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e obesidade pela USP. Atua com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real. Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

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