Colunas
Lanna Vaughan Romano é advogada e Presidente da Comissão de Direito Médico e da Saúde da OAB Sumaré

Coluna Direito Médico e da Saúde

Obstetrícia: a comunicação como antídoto para a judicialização

A especialidade obstétrica figura entre as que mais concentram demandas judiciais no sistema de saúde brasileiro. Contudo, a origem desses litígios frequentemente transcende a esfera técnica. A experiência forense revela que a raiz do conflito reside, em grande par te, em um elemento aparentemente simples, porém de profunda complexidade: a ruptura no canal de comunicação entre o profissional da saúde, a gestante e seu núcleo familiar.

A gestação é um período singular, marcado por uma intensa confluência de emoções, expectativas e projeções. É um processo que envolve não apenas a mulher, mas também seu parceiro, familiares e toda a rede de apoio que a cerca. Qualquer desvio em relação ao cenário idealizado seja durante o pré-natal, no parto ou no puerpério, pode gerar um profundo impacto psicossocial.

Nesse contexto, a frustração diante de um desfecho inesperado pode rapidamente se transmutar em um senti mento de violação de direitos. É precisamente nesse cenário que a comunicação clínica assume um papel de blindagem jurídica e humanização do cuidado. O ordenamento jurídico brasileiro, em consonância com os princípios da bioética, assegura ao paciente o direito a uma informação clara, adequada e compreensível.

Na prática obstétrica, isso se materializa na obrigação de elucidar, desde as primeiras consultas, que a gravidez e o parto são processos fisiológicos acompanhados de riscos inerentes, que o plano de parto pode necessitar de adaptações e que a medicina, embora fundamentada em evidências, não detém o controle absoluto sobre todos os desfechos.

A omissão ou a superficialidade nesse diálogo tende a construir uma expectativa irreal de perfeição. Quando a realidade impõe uma cesárea não planejada, uma intercorrência neonatal, uma complicação materna ou, no cenário mais extremo, um óbito, o trauma emocional encontra terreno fértil na desconfiança e na percepção de abandono.

Muitas ações judiciais nascem menos de um erro técnico categórico e mais da sensação de ter sido “surpreendido” ou “deixado à margem” do processo decisório. A vulnerabilidade jurídica do obstetra, portanto, muitas vezes não está no “como” fez, mas no “como” informou e documentou.

Um prontuário lacônico, um termo de consentimento vago ou a ausência de registros robustos sobre as orientações fornecidas fragilizam a defesa, mesmo quando a conduta clínica foi irrepreensível. Em contrapartida, a comunicação efetiva e documentada é a principal aliada na demonstração da adequada assistência.

Assim, a gestão de risco jurídico na obstetrícia inicia-se no pré-natal. É construída consulta a consulta, por meio de um diálogo transparente, empático e contínuo, onde dúvidas são sanadas, expectativas são alinhadas e o consenti mento é verdadeiramente informado.

O profissional que adota uma postura de escuta ativa, que documenta as discussões e acolhe as angústias, não apenas pratica uma medicina mais humana, mas também edifica uma sólida barreira contra a judicialização.

No Direito Médico contemporâneo, a avaliação da conduta obstétrica vai além do resultado final. Ela passa a analisar a qualidade do processo assistencial: a integridade da informação, a validade do consentimento, a continuidade do acompanhamento e a fidedignidade do registro. Nesse sentido, a humanização da assistência deixa de ser apenas um imperativo ético para se revelar uma estratégia essencial de segurança jurídica.

Em um campo tão carregado de simbolismo e emoção como o nascimento, a arte de comunicar-se com clareza e empatia é uma competência profissional tão crucial quanto o domínio da técnica cirúrgica ou do manejo clínico. Investir nela é cuidar do paciente e, simultaneamente, proteger a prática médica.

Dra. Lanna Vaughan Romano é advogada especialista em Direito Médico e Direito da Saúde Presidente da Comissão de Direito Médico e da Saúde da OAB Sumaré

E-mail: dra.lannaromano@gmail.com

End.: Rua dom Barreto, nº1.380, Centro, Sumaré/SP.

Rede social- instagram: dra.lanna_vaughan

Deixe um comentário