Coluna Olhar de Dentro
Violência contra meninas e mulheres: não podemos mais calar
Há assuntos que a gente não gostaria de abordar. Mas o
silêncio, diante de certas dores, é um luxo que não podemos mais nos permitir.
Nos últimos tempos, temos visto crescer o número de casos de violência sexual
contra meninas e mulheres, notícias que chocam, revoltam e nos obrigam a olhar
para uma ferida aberta da nossa sociedade, mas é necessário encará-la para,
então, enfrentá-la.
Existe uma informação que precisa ser exposta, por mais
dolorosa que seja. Na maioria dos casos, a violência não vem só de um estranho
na rua. Os números da segurança pública mostram que grande parte das vítimas
são crianças e adolescentes, e que, na maioria das vezes, o agressor é alguém
próximo: um conhecido, amigo, um vizinho, ou até mesmo alguém da própria
família ou do círculo de confiança. É uma realidade difícil de aceitar.
Por isso, o cuidado dos pais e responsáveis precisa ir muito
além. É necessário manter o diálogo aberto com crianças e adolescentes, ensinar
desde cedo que ninguém pode tocá-los sem o seu consentimento, prestar atenção a
mudanças de comportamento e, acima de tudo, acreditar na criança quando ela tem
coragem de falar. Muitas vítimas se calam por vergonha, medo ou por não se
sentirem ouvidas. Criar um ambiente de confiança dentro de casa ajuda a
proteger uma criança de um sofrimento que pode durar a vida inteira. Mas esse
cuidado não precisa acontecer apenas dentro do lar. Em muitos casos, contar com
ajuda profissional — como psicólogos, orientadores, assistentes sociais ou
redes de apoio especializadas — também podem ser fundamentais para acolher,
orientar e oferecer o suporte necessário tanto para a criança quanto para a
família.
Mas proteger não basta. Precisamos ir à raiz do problema, e
esta passa, principalmente, pela educação. Através da forma como criamos os
nossos filhos. Ensinar um menino, desde cedo, a respeitar, a ouvir um não, a
enxergar a mulher com o devido respeito e nunca como objeto, é talvez a forma
mais profunda de prevenir a violência de amanhã. Essa educação começa em casa,
no exemplo e pequenas atitudes do dia a dia.
Porque o que estamos vendo é também o retrato de uma
mentalidade cada vez mais adoecida. Não se trata apenas de adolescentes, embora
existam, sim, casos graves envolvendo jovens. São adultos, muitas vezes homens
já maduros, que cometem esses crimes. É um adoecimento social que se alimenta
do silêncio, da banalização e de uma cultura que por tempo demais tratou esse
tipo de violência como assunto para esconder. Curar essa mentalidade é uma
tarefa de todos nós.
E há caminhos concretos: denunciar é um deles, e existem
canais seguros e gratuitos para isso. A Central de Atendimento à Mulher, o
Disque 180, recebe denúncias de violência contra a mulher. O Disque 100 atende
casos que envolvem crianças e adolescentes. Os dois funcionam de forma
sigilosa, 24 horas por dia. Quebrar o silêncio, acolher quem sofreu sem
julgamento e jamais culpar a vítima são atitudes que salvam vidas.
Proteger e cuidar é responsabilidade de toda a comunidade.
E você, está disposto a fazer a sua parte, seja educando os
seus filhos com respeito, acolhendo quem precisa, ou quebrando o silêncio
quando algo não parece certo?

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