Coluna Nutrição Além do Prato
Eletrólitos para todo mundo?
De repente, colocar eletrólitos na água virou parte da
rotina de muita gente. Tem quem use ao acordar, antes do treino, depois do
treino e até ao longo de um dia comum, como se a água sozinha tivesse deixado
de ser suficiente para hidratar. A popularidade não surgiu do nada. Eletrólitos
são importantes e sua reposição tem aplicações muito bem estabelecidas,
especialmente no esporte. A questão é quando uma estratégia que faz sentido em
determinados contextos começa a ser tratada como uma necessidade praticamente
universal.
Quando suamos, não perdemos apenas água. Perdemos também
eletrólitos, principalmente sódio, mas tanto o volume de suor quanto a
concentração de sódio nele variam bastante entre as pessoas. Duração e
intensidade do exercício, temperatura, umidade, roupas utilizadas e aclimatação
ao calor também interferem nessas perdas. Por isso, alguém correndo por duas
horas em um dia quente não está na mesma situação de quem fez cinquenta minutos
de musculação em uma academia climatizada. Parece uma comparação óbvia, mas ela
mostra bem o problema de transformar uma estratégia individual em recomendação
para todo mundo.
Na nutrição esportiva, eletrólitos podem ser extremamente
úteis. Atletas com altas taxas de sudorese, pessoas que treinam ou competem por
períodos prolongados, especialmente no calor, e indivíduos com grandes perdas
de sódio podem se beneficiar de estratégias específicas de reposição. Em alguns
casos, inclusive, avaliamos a taxa de sudorese para entender quanto aquela
pessoa perde durante o exercício e individualizar melhor sua hidratação. Isso é
bem diferente de concluir que qualquer pessoa que suou durante um treino
precisa tomar um sachê de eletrólitos depois.
Nosso organismo já lida com água e eletrólitos o tempo
inteiro. Sódio, potássio, magnésio e outros minerais fazem parte da
alimentação, e os rins têm um papel fundamental no controle das concentrações
desses elementos e do equilíbrio de água no corpo. Para uma pessoa saudável,
que se alimenta normalmente e não apresenta perdas relevantes, não existe uma
necessidade fisiológica de começar todos os dias com água enriquecida com
eletrólitos. Isso não significa que tomar eventualmente seja um problema, mas também
não significa que acrescentá-los à água vá necessariamente melhorar a
hidratação de quem já estava adequadamente hidratado.
O que acho particularmente interessante é observar como
algumas estratégias migram do esporte para o universo do wellness. Algo
utilizado para atender uma necessidade específica ganha espaço nas redes
sociais, novas apresentações, sabores, embalagens e promessas e, aos poucos,
deixa de parecer uma ferramenta para virar um hábito de saúde. Começam então a
surgir perguntas como “qual eletrólito eu deveria tomar todos os dias?”, quando
antes valeria entender se aquela pessoa tem perdas ou uma rotina que justifiquem
essa reposição.
Essa discussão também conversa com a ideia bastante
difundida de que cãibra significa falta de eletrólitos. Hoje sabemos que as
cãibras associadas ao exercício são mais complexas do que isso, e a evidência
não sustenta explicar todos os episódios simplesmente por desidratação ou perda
de minerais. Em algumas situações, perdas importantes de líquidos e eletrólitos
podem participar do quadro; em outras, fadiga neuromuscular e características
individuais parecem ter papel relevante. Mais uma vez, não existe uma resposta
única que funcione para todas as pessoas e situações.
Também não precisamos ir para o outro extremo. Eletrólitos
não são inúteis, bebidas esportivas não são necessariamente desperdício e água
pura não é sempre suficiente para qualquer situação. Em exercícios prolongados,
no calor ou diante de grandes perdas pelo suor, uma estratégia adequada de
líquidos e sódio pode ser importante. Eu mesma utilizo bastante esse recurso na
prática clínica esportiva quando existe indicação. O ponto não é questionar a
ferramenta, mas a transformação de uma ferramenta específica em hábito
obrigatório.
Essa talvez seja uma das características mais interessantes
do universo atual da saúde e do wellness: estamos cada vez mais cercados por
produtos destinados a otimizar funções que, na maior parte do tempo, nosso
organismo já consegue regular muito bem. Isso não torna esses produtos ruins e
nem significa que não tenham utilidade. Significa apenas que a existência de um
produto e a popularidade dele não determinam uma necessidade fisiológica.
No fim, hidratação pode ser bem menos sofisticada do que parece nas redes sociais. Para muita gente, água e uma alimentação adequada dão conta de grande parte do dia. Para quem treina por longos períodos, sua muito, enfrenta calor ou apresenta perdas importantes de sódio, a estratégia pode precisar ser outra. Eletrólitos têm um lugar importante, principalmente na nutrição esportiva, mas entender para quem, quando e por que utilizá-los continua sendo muito mais interessante do que simplesmente transformar mais uma boa estratégia em regra.
Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela
UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua
com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre
com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus
textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real.
Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

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