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Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade

Coluna Nutrição Além do Prato

Quando um nutriente vira marketing

Quem entra hoje em um supermercado dificilmente passa por uma prateleira sem encontrar algum destaque na embalagem. “High protein”. “Fonte de fibras”. “Zero açúcar”. “Sem glúten”. “Com colágeno”. “Enriquecido com vitaminas”. Em muitos casos, o nutriente deixa de ser apenas uma característica do alimento e passa a ocupar o papel principal da estratégia de venda. Nos últimos anos, a proteína talvez seja o melhor exemplo desse fenômeno. Iogurtes, barras, sobremesas, sorvetes, biscoitos, chocolates e uma infinidade de produtos passaram a destacar sua quantidade de proteína como se esse único atributo fosse suficiente para definir a qualidade nutricional do alimento. A mensagem transmitida é simples: se tem mais proteína, deve ser melhor para a saúde.

A proteína é, sem dúvida, um nutriente essencial. Participa da manutenção da massa muscular, da recuperação dos tecidos, da produção de enzimas, hormônios e anticorpos, além de contribuir para a saciedade. Em diferentes fases da vida, especialmente durante o envelhecimento ou para pessoas fisicamente ativas, consumir uma quantidade adequada de proteínas faz toda a diferença. O problema começa quando um nutriente deixa de ser parte do alimento e passa a ser o próprio argumento de venda.

Na prática, isso faz com que muitos consumidores deixem de olhar o alimento como um todo. A atenção se concentra em uma única informação da embalagem, enquanto outros aspectos igualmente importantes passam despercebidos. Quantidade de açúcar, qualidade das gorduras, lista de ingredientes, grau de processamento e contexto de consumo acabam ficando em segundo plano. Esse fenômeno recebe, inclusive, um nome na ciência do comportamento do consumidor: efeito halo. Trata-se da tendência de permitir que uma característica positiva influencie a percepção sobre todo o produto. É o mesmo mecanismo que faz muitas pessoas acreditarem que um alimento é automaticamente saudável apenas porque contém proteína, fibras ou vitaminas adicionadas.

Isso não significa que alimentos enriquecidos ou produtos proteicos sejam necessariamente ruins. Muitos deles podem ter espaço dentro de uma alimentação equilibrada e atender necessidades específicas. O problema surge quando o marketing faz parecer que adicionar um nutriente transforma automaticamente um produto em uma escolha superior. Hoje encontramos chocolates proteicos, sorvetes proteicos, pipocas proteicas, sobremesas proteicas e diversos outros produtos enriquecidos. Isso não torna esses alimentos inadequados, mas mostra como um nutriente passou a ocupar um espaço que, muitas vezes, pertence mais ao marketing do que à ciência.

Enquanto isso, alimentos naturalmente ricos em proteínas, como ovos, leite, iogurte natural, carnes, peixes, feijão e outras leguminosas, continuam oferecendo proteínas de excelente qualidade acompanhadas de uma matriz alimentar muito mais completa e, frequentemente, por um custo menor. Curiosamente, eles nem sempre recebem o mesmo destaque que produtos industrializados cuja principal estratégia de venda é justamente a adição de um nutriente específico.

Talvez a reflexão mais importante seja entender que nutrientes não existem isoladamente na vida real. Nós não consumimos proteínas, fibras ou vitaminas separadas do restante do alimento. Consumimos refeições, preparações e padrões alimentares. É esse conjunto que influencia nossa saúde muito mais do que um único componente destacado na embalagem. Da mesma forma, um produto não se torna automaticamente saudável apenas porque recebeu um ingrediente a mais, assim como um alimento não deixa de ser nutritivo simplesmente porque não traz uma alegação chamativa na parte da frente da embalagem.

Por isso, antes de colocar um produto no carrinho porque ele promete mais proteína, vale fazer uma pergunta simples: estou escolhendo esse alimento pela qualidade do conjunto ou apenas pela promessa estampada na frente da embalagem? Essa talvez seja uma das habilidades mais importantes para quem deseja fazer escolhas conscientes em um cenário onde o marketing alimentar se torna cada vez mais sofisticado.

A ciência da nutrição continua sendo construída olhando para padrões alimentares, variedade, equilíbrio e contexto. O marketing, por outro lado, costuma funcionar destacando um único atributo capaz de chamar nossa atenção. E talvez essa seja a principal diferença entre os dois. Um nutriente pode ser extremamente importante para a saúde, mas, quando ele se transforma apenas em estratégia de venda, o risco é deixarmos de enxergar o alimento como um todo.

Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real. Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

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