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Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade

Coluna Nutrição Além do Prato

É muito comum tratarmos alimentação saudável como uma sequência de decisões individuais. Comer mais frutas e verduras, diminuir o consumo de ultraprocessados, cozinhar mais, organizar as refeições, beber água, praticar atividade física. Tudo isso importa. Mas existe uma parte dessa conversa que não pode ser ignorada: para fazer boas escolhas, primeiro é preciso ter condições de escolher.

É aí que entra o conceito de segurança alimentar. E ele vai muito além de não passar fome. No Brasil, segurança alimentar e nutricional é definida como o acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer outras necessidades essenciais. Ou seja, não basta que exista comida. É preciso que ela esteja disponível de forma adequada, contínua e compatível com uma vida digna.

Os dados mais recentes do IBGE mostram que, em 2024, 75,8% dos domicílios brasileiros estavam em situação de segurança alimentar. Isso também significa que 24,2% apresentavam algum grau de insegurança alimentar e 3,2% estavam em insegurança alimentar grave. Foram cerca de 2,5 milhões de domicílios em que a restrição quantitativa de alimentos atingiu também crianças e adolescentes.

Mas os números mostram apenas uma parte do problema. Existe uma outra dimensão, menos fácil de medir, que aparece todos os dias na vida real. Uma pessoa pode saber perfeitamente o que seria uma alimentação mais adequada e, ainda assim, não conseguir colocá-la em prática.

Pode faltar dinheiro para comprar determinados alimentos. Pode não haver um mercado com boas opções perto de casa. Pode faltar geladeira, fogão ou espaço adequado para armazenar e preparar comida. Pode existir uma jornada extensa de trabalho, horas gastas no transporte e pouco tempo disponível para cozinhar. E pode faltar também informação confiável ou acesso a profissionais de saúde que consigam transformar recomendações gerais em orientações realmente possíveis para aquela realidade.

Até algumas recomendações que parecem simples carregam exigências que nem sempre percebemos. Quando dizemos para alguém “se organizar melhor”, por exemplo, isso pressupõe tempo. Comprar alimentos em maior quantidade pode exigir dinheiro disponível naquele momento e condições para armazená-los. Preparar refeições com antecedência depende de estrutura e, novamente, de tempo. Praticar atividade física com regularidade também pode depender de segurança no bairro, horários possíveis, acesso a espaços adequados e até de alguém que possa cuidar dos filhos enquanto aquela pessoa se exercita.

Reconhecer tudo isso não significa retirar das pessoas a responsabilidade sobre a própria saúde. Significa apenas entender que comportamento individual não acontece no vazio. Cada escolha é feita dentro de uma realidade, com recursos, limitações e possibilidades diferentes.

Por isso, informação é necessária, mas informação sozinha não resolve tudo. Como nutricionista, eu posso ensinar alguém a montar uma refeição equilibrada, explicar a importância das proteínas, das fibras, dos vegetais, da hidratação e da prática de atividade física. Posso ajudar a construir uma estratégia que faça sentido para determinada rotina. Mas existe um limite para aquilo que uma orientação individual consegue resolver quando as condições básicas para executá-la não estão disponíveis.

É justamente nesse ponto que alimentação e saúde deixam de ser apenas assuntos individuais e passam também pelo coletivo. Segurança alimentar envolve produção, abastecimento, renda, acesso aos alimentos, educação, assistência em saúde e condições sociais que permitam às pessoas exercerem suas escolhas. A própria legislação brasileira reconhece que o direito à alimentação adequada envolve dimensões econômicas, sociais, culturais e regionais.

Em uma semana em que o país volta a discutir seus caminhos por meio das eleições, talvez seja uma boa oportunidade para lembrar disso sem transformar alimentação em disputa partidária. Falar sobre acesso à saúde e à alimentação não deveria ser entendido como defesa de um lado ou de outro. É falar sobre condições básicas para que as pessoas possam cuidar de si mesmas e de suas famílias.

Saúde não começa somente no consultório. E alimentação adequada não depende apenas de saber o que comer. 

Comer bem envolve escolhas, claro. Mas escolha só existe de verdade quando existe acesso, informação, tempo, dinheiro e condições para colocá-la em prática.

Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real. Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

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