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Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade

Coluna Nutrição Além do Prato

Por que os mitos nutricionais se espalham tão rápido e a informação de qualidade não?

Se existe algo curioso na nutrição, é a velocidade com que certas ideias se espalham. Algumas frases se tornam quase verdades universais. Carboidrato engorda. Leite inflama. Ovo faz mal. Para emagrecer, basta fechar a boca. Shot matinal melhora a imunidade. Suco detox limpa o organismo. Chá seca barriga.

Essas afirmações circulam com facilidade, são repetidas, compartilhadas e, muitas vezes, incorporadas ao dia a dia sem questionamento. Enquanto isso, a informação baseada em evidência, mais equilibrada e contextualizada, raramente ganha o mesmo espaço ou a mesma adesão.

Mas por que isso acontece?

Um dos principais motivos é a forma como o cérebro humano lida com a informação. Nós tendemos a preferir explicações simples para problemas complexos. Dizer que o emagrecimento depende de múltiplos fatores, como comportamento alimentar, sono, estresse, composição corporal e rotina, exige mais reflexão. Já apontar um único vilão ou uma solução rápida reduz a complexidade e gera uma sensação imediata de controle.

Além disso, existe o fator emocional. Promessas rápidas, soluções fáceis e explicações diretas ativam expectativa e esperança. É muito mais atraente acreditar que um chá pode resolver algo do que aceitar que mudanças consistentes levam tempo, exigem organização e envolvem ajustes de comportamento.

Outro ponto importante é o efeito de repetição. Quanto mais uma informação é exposta, mais familiar ela se torna. E o que é familiar tende a ser percebido como verdadeiro. Quando uma ideia é reforçada por redes sociais, amigos, familiares e até profissionais mal informados, ela se consolida como parte da cultura.

Também existe um componente social forte. Muitas dessas crenças são compartilhadas em grupo, reforçando um senso de pertencimento. Questionar essas ideias, por outro lado, pode gerar desconforto, porque exige sair do que já é amplamente aceito.

A própria forma como a informação correta é comunicada também influencia. A ciência, por natureza, é cautelosa. Trabalha com probabilidades, contextos, individualidade. Raramente traz respostas absolutas. Isso, embora seja uma qualidade do ponto de vista científico, pode parecer menos convincente para quem busca certezas rápidas.

Enquanto isso, o discurso dos mitos é direto, assertivo e muitas vezes carregado de promessas. Ele não abre espaço para dúvida, e isso, paradoxalmente, o torna mais persuasivo.

Existe ainda um fator comportamental importante. Muitas pessoas não estão apenas buscando informação, mas validação. Querem confirmar algo que já acreditam ou uma estratégia que pareça mais fácil de seguir. E os mitos frequentemente oferecem exatamente isso.

O problema é que, apesar de parecerem inofensivos, esses discursos têm impacto real. Eles geram medo de alimentos, criam relações distorcidas com a comida, incentivam práticas desnecessárias e desviam o foco do que realmente importa.

Enquanto alguém evita carboidrato por medo, pode estar negligenciando a qualidade global da alimentação. Enquanto busca soluções rápidas, pode estar deixando de construir hábitos consistentes. Enquanto acredita em atalhos, pode estar se afastando de resultados sustentáveis. E isso nos leva ao ponto mais importante.

O que faz a diferença na saúde não são soluções isoladas, mas padrões construídos ao longo do tempo. Alimentação equilibrada, regularidade, qualidade do sono, movimento e organização da rotina têm um impacto muito maior do que qualquer estratégia pontual.

Mas isso não viraliza com a mesma facilidade. Porque não é rápido, não é simples e não promete resultado imediato. Diante desse cenário, o papel da informação de qualidade não é competir com o mito no nível da simplificação, mas ajudar as pessoas a desenvolver senso crítico.

Ensinar a questionar, a entender contexto e a diferenciar evidência de opinião. No fim das contas, o problema não é só a existência dos mitos, mas a forma como nos relacionamos com a informação. E talvez a pergunta mais importante não seja o que estão dizendo por aí, mas por que isso faz tanto sentido para quem escuta.

Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real. Atende na clínica Centerclin, em Sumaré. 

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