Coluna Mercado Imobiliário
Due Diligence
O que os investidores experientes ainda negligenciam no Interior Paulista
Ao longo de mais de três décadas atuando nas trincheiras do jornalismo, na precisão estratégica do marketing, desenvolvi uma lente muito particular para analisar o mercado. Essa bagagem multidisciplinar me confere uma sensibilidade aguçada: fechar um grande negócio não se resume a cruzar planilhas financeiras, mas sim a traduzir e materializar os anseios dos meus clientes. No entanto, é exatamente na ânsia de realizar esse desejo, seja a casa dos sonhos no interior ou o galpão logístico perfeito, que muitos investidores, até mesmo os mais experientes, tropeçam no básico.
O interior de São Paulo vive um momento sem precedentes. Cidades como Paulínia, Campinas, Nova Odessa e Hortolândia tornaram-se ímãs para famílias em busca de qualidade de vida e para corporações reestruturando suas malhas logísticas. Contudo, esse aquecimento acelerado do mercado traz consigo um efeito colateral perigoso: a pressa em assinar o contrato.
É aqui que entra o conceito de Due Diligence (a diligência prévia ou auditoria). Parece um termo exclusivo para fusões corporativas, mas é a espinha dorsal de qualquer transação imobiliária segura. Como consultor e investigador por natureza — herança do jornalismo —, frequentemente me deparo com negócios brilhantes no papel que escondem armadilhas documentais severas.
Abaixo, detalho os três pontos básicos que costumam ser negligenciados na empolgação da compra e que definem a linha tênue entre um patrimônio sólido e uma dor de cabeça jurídica.
A ILUSÃO DA MATRÍCULA DESATUALIZADA E AS BENFEITORIAS FANTASMAS
A matrícula do imóvel é a certidão de nascimento da propriedade. O erro mais comum é solicitar a matrícula, ver que o terreno está no nome do vendedor e dar a checagem por encerrada. O perigo real mora na divergência entre o que está no papel e o que está no terreno.
No interior, é extremamente comum encontrar casas de alto padrão em condomínios fechados ou galpões industriais que sofreram expansões significativas nos últimos anos, mas cujas benfeitorias nunca foram averbadas (registradas) na matrícula. Comprar um imóvel nessa situação significa herdar a obrigação — e as pesadas taxas e multas municipais — de regularizar a planta junto à prefeitura e ao cartório. O preço final da transação, portanto, é muito maior do que o anunciado.
A “DANÇA” DO ZONEAMENTO MUNICIPAL
A dinâmica urbana das cidades do interior paulista muda rapidamente para acomodar o crescimento. Um erro primário, mas surpreendentemente frequente, é ignorar o Plano Diretor do município antes de comprar. Você ou seu cliente podem estar adquirindo uma chácara maravilhosa com a intenção de transformá-la em um loteamento residencial no futuro, apenas para descobrir que a prefeitura alterou o zoneamento daquela via para estritamente industrial ou de preservação ambiental permanente (APP). A experiência em marketing me ensinou que o valor de um produto está intimamente ligado à sua usabilidade futura; no mercado imobiliário, essa usabilidade é ditada pelas regras de uso e ocupação do solo. A consulta de viabilidade prévia na prefeitura não é uma opção, é um mandato.
A TEIA DAS CERTIDÕES NEGATIVAS CRUZADAS
Muitos acreditam que basta o imóvel não ter dívidas de IPTU ou condomínio para que o negócio seja seguro. Este é um erro fatal. A blindagem real exige investigar não apenas o imóvel, mas o CPF ou CNPJ de quem vende.
Se o proprietário atual for alvo de ações trabalhistas, execuções fiscais ou processos cíveis, a venda do imóvel pode ser caracterizada futuramente como “fraude à execução”. Isso significa que um juiz pode anular a sua compra anos depois, para usar o imóvel para pagar as dívidas do antigo dono. Um levantamento completo de certidões nos âmbitos federal, estadual e municipal, além da Justiça do Trabalho, é o único escudo contra a perda do patrimônio.
O papel do consultor imobiliário, transcende a simples apresentação de imóveis bonitos ou bem localizados. A verdadeira consultoria está em alinhar a intuição e a leitura do desejo humano com o rigor técnico e jurídico. Um negócio bem-sucedido e rentável no próspero interior paulista começa na base. Quando garantimos que a fundação documental é inabalável, deixamos o caminho livre para que a propriedade cumpra o seu verdadeiro papel: ser um vetor de segurança, alegria e prosperidade para quem a conquista.
Wendell Stein é bacharel em Comunicação Social e Personal Imobiliário da Imobiliária Wizard TGarante. Contatos pelo email wendellstein@me.com e pelo Whatsapp (19) 99702-0126

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