Colunas
Lanna Vaughan Romano é advogada especialista em Direito Médico, Direito da Saúde e Direito da Farmácia

Coluna Direito Médico e da Saúde

A cultura do erro: punir ou aprender?

Sempre que uma notícia sobre um erro na área da saúde ganha repercussão, a primeira reação costuma ser encontrar um culpado. Médicos, enfermeiros, hospitais ou clínicas passam a ser alvo de críticas antes mesmo da apuração dos fatos. Mas será que punir, isoladamente, é suficiente para tornar a assistência mais segura?

O Direito Médico moderno vem acompanhando uma mudança importante na forma de compreender os eventos adversos. Em vez de concentrar toda a responsabilidade em um único profissional, busca-se analisar o sistema como um todo. Afinal, muitas falhas decorrem da soma de pequenos fatores: jornadas excessivas, deficiência na comunicação entre equipes, prontuários incompletos, protocolos inexistentes ou inadequadamente aplicados e falhas estruturais das instituições.

Isso não significa afastar a responsabilização quando há negligência, imprudência ou imperícia. Esses casos continuam sujeitos às consequências éticas, civis e, quando cabível, penais. Entretanto, nem todo resultado indesejado decorre de uma conduta ilícita.

Na medicina, o risco é inerente à atividade. Mesmo quando todos os protocolos são observados e a técnica é corretamente empregada, complicações podem ocorrer. Confundir complicação inevitável com erro médico representa uma das maiores distorções enfrentadas na judicialização da saúde.

Por essa razão, hospitais que investem em programas de segurança do paciente, análise de eventos adversos e gestão de riscos conseguem reduzir significativamente a repetição de falhas. O objetivo deixa de ser apenas identificar “quem errou” e passa a responder uma pergunta muito mais relevante: “por que isso aconteceu e como impedir que volte a acontecer?”

Essa lógica já é aplicada há décadas em setores como a aviação, nos quais cada incidente é cuidadosamente estudado para aperfeiçoar processos e evitar novos acidentes. A saúde vem incorporando essa mesma cultura, compreendendo que ambientes seguros dependem de aprendizado contínuo e não apenas de punições.

O Direito Médico também desempenha papel importante nesse cenário. Além de solucionar conflitos, deve incentivar boas práticas, fortalecer programas de compliance, orientar instituições e promover mecanismos capazes de prevenir litígios antes que eles aconteçam.

A verdadeira segurança do paciente não nasce do medo de ser processado. Ela nasce de instituições comprometidas com a qualidade, de profissionais continuamente capacitados e de uma cultura que reconhece as falhas como oportunidade de aperfeiçoamento, sem deixar de responsabilizar quem efetivamente age em desacordo com a técnica ou com a lei.

A saúde evolui quando o conhecimento supera a culpa. E a Justiça também cumpre melhor sua função quando distingue o erro evitável do risco inerente ao exercício da medicina.

Lanna Vaughan Romano é advogada especialista internacional em Direito Médico, Direito da Saúde e Direito da Farmácia e do Medicamento.

e-mail: dra.lannaromano@gmail.com

End.: Rua Dom Barreto, nº1.380, Centro, Sumaré/SP.

Rede social- instagram: dra.lanna_vaughan

Deixe um comentário