Coluna Nutrição Além do Prato
Quando o feed decide o cardápio: os impactos das redes sociais nas escolhas alimentares
As redes sociais passaram a ocupar um espaço central na
forma como nos informamos, nos relacionamos e, cada vez mais, na maneira como
comemos. Hoje, muitas escolhas alimentares não nascem de orientações
profissionais ou de necessidades individuais, mas do que aparece no feed.
Vídeos curtos, rotinas alimentares idealizadas, dietas “milagrosas” e corpos
padronizados acabam funcionando, muitas vezes, como referência do que seria
saudável, correto ou desejável.
Esse movimento não é neutro. Do ponto de vista psicológico,
a exposição constante a conteúdos sobre alimentação e corpo pode gerar
comparação, culpa, ansiedade e uma sensação permanente de inadequação. Quando
alguém vê diariamente o que outra pessoa come, como treina ou como aparenta se
sentir “no controle”, é comum surgir a ideia de que, se aquilo funcionou para
ela, deveria funcionar para todos. O problema é que essa lógica ignora
diferenças fundamentais como contexto de vida, rotina, histórico de saúde, cultura
alimentar, acesso a alimentos e necessidades individuais.
No comportamento alimentar, o impacto também é evidente.
Modismos nutricionais se espalham rapidamente, dietas restritivas ganham força
sem avaliação crítica e estratégias isoladas passam a ser tratadas como
soluções universais. Muitas pessoas começam a excluir grupos alimentares,
seguir regras rígidas ou alternar dietas com frequência, guiadas mais pela
promessa de resultado rápido do que por critérios de saúde e sustentabilidade a
longo prazo.
Há ainda a questão da confiança. As redes misturam
profissionais qualificados, pessoas bem-intencionadas e influenciadores sem
formação técnica, todos falando com a mesma autoridade aparente. Nem sempre é
simples diferenciar informação de opinião, evidência científica de experiência
pessoal. Quando essa distinção não é clara, cresce o risco de seguir
orientações inadequadas, generalistas ou até prejudiciais à saúde.
Isso não significa que as redes sociais sejam apenas
negativas. Elas fazem parte das nossas construções sociais, dos nossos vínculos
e da forma como nos inspiramos. Compartilhar experiências, trocar ideias e
sentir pertencimento também são aspectos importantes da vida em sociedade. O
ponto central é desenvolver filtros. Aprender a questionar, a observar quem
estamos seguindo e a entender se aquele conteúdo conversa com a nossa realidade
ou apenas com um ideal inalcançável.
É fundamental ter cuidado com comparações. O que serve para
alguém que você acompanha não necessariamente serve para você. Necessidades são
diferentes, contextos são diferentes e trajetórias de saúde também são.
Construir senso crítico passa por reconhecer essas diferenças e aceitar que não
existe uma única forma correta de se alimentar que funcione para todas as
pessoas.
Nesse processo, a presença de profissionais capacitados faz
toda a diferença. Tanto no ambiente digital quanto fora dele, é importante
buscar referências que respeitem a individualidade, que contextualizem
informações e que não vendam atalhos. Quando o cuidado é direcionado, ele
precisa ser individualizado. Alimentação, saúde e bem-estar não se resolvem com
fórmulas prontas, mas com acompanhamento, escuta e orientação qualificada.
No fim das contas, usar as redes sociais de forma saudável também é uma escolha. Seguir pessoas que informam, acolhem e respeitam a complexidade da vida real é parte desse caminho. Construir senso crítico, questionar modismos e entender que cuidar da alimentação vai muito além do que aparece na tela é um passo essencial para uma relação mais equilibrada com a comida e com o próprio corpo.
Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela
UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua
com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre
com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus
textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real.
Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

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