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Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade

Coluna Nutrição Além do Prato

Polivitamínicos: por que cápsulas não substituem uma boa alimentação

Em algum momento, muitas pessoas já ouviram ou disseram algo parecido com isso: “Vou tomar um polivitamínico. Mal não vai fazer”. A ideia parece lógica. Se vitaminas e minerais são essenciais para o funcionamento do corpo, tomar um suplemento com vários deles ao mesmo tempo poderia funcionar como uma espécie de seguro nutricional.

Mas a ciência mostra que a relação entre suplementos e saúde é um pouco mais complexa do que essa lógica aparentemente simples.

Vitaminas e minerais são indispensáveis para o organismo. Participam da produção de energia, da função imunológica, da saúde óssea, do funcionamento do sistema nervoso e de inúmeros processos metabólicos. No entanto, isso não significa que quanto mais, melhor.

Quando consumidos em excesso, alguns micronutrientes podem causar efeitos indesejados. Vitaminas lipossolúveis, como A, D, E e K, por exemplo, são armazenadas no organismo e podem se acumular ao longo do tempo. Minerais como ferro e zinco também precisam ser utilizados com critério, já que quantidades elevadas podem gerar desequilíbrios ou interferir na absorção de outros nutrientes.

Outro ponto importante é que o uso indiscriminado de suplementos pode mascarar situações que deveriam ser investigadas com mais atenção. Cansaço persistente, queda de cabelo, alterações de humor ou dificuldade de concentração, por exemplo, podem estar relacionados a deficiências nutricionais específicas, mas também a questões hormonais, metabólicas ou inflamatórias. Tomar um polivitamínico sem avaliar a causa desses sintomas pode apenas adiar um diagnóstico adequado.

Isso não significa que suplementos não tenham lugar na promoção da saúde. Em muitos casos, eles são ferramentas importantes quando utilizados de forma individualizada e com indicação adequada. Gestantes, idosos, pessoas com restrições alimentares específicas ou com deficiências comprovadas podem se beneficiar bastante da suplementação orientada.

A diferença está na forma como esses produtos são utilizados. Em vez de funcionar como um substituto para hábitos alimentares inadequados, a suplementação deveria entrar como complemento quando realmente necessário.

A base da saúde nutricional continua sendo a alimentação. Uma rotina alimentar variada, com presença de alimentos in natura e minimamente processados, tende a fornecer não apenas vitaminas e minerais, mas também fibras, compostos bioativos e outras substâncias que atuam de forma integrada no organismo.

Em outras palavras, nutrientes isolados não conseguem reproduzir completamente o efeito de uma alimentação equilibrada.

Cuidar da saúde envolve muito mais do que adicionar cápsulas à rotina. Envolve qualidade alimentar, sono adequado, atividade física, manejo do estresse e acompanhamento profissional quando necessário.

No fim das contas, a pergunta talvez não seja apenas se um polivitamínico faz bem ou mal. A reflexão mais importante é outra: será que estamos tentando compensar com suplementos aquilo que deveria começar no prato?

Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real. Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

 

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