Coluna Nutrição Além do Prato
Polivitamínicos: por que cápsulas não substituem uma boa alimentação
Em algum momento, muitas pessoas já ouviram ou disseram algo
parecido com isso: “Vou tomar um polivitamínico. Mal não vai fazer”. A ideia
parece lógica. Se vitaminas e minerais são essenciais para o funcionamento do
corpo, tomar um suplemento com vários deles ao mesmo tempo poderia funcionar
como uma espécie de seguro nutricional.
Mas a ciência mostra que a relação entre suplementos e saúde
é um pouco mais complexa do que essa lógica aparentemente simples.
Vitaminas e minerais são indispensáveis para o organismo.
Participam da produção de energia, da função imunológica, da saúde óssea, do
funcionamento do sistema nervoso e de inúmeros processos metabólicos. No
entanto, isso não significa que quanto mais, melhor.
Quando consumidos em excesso, alguns micronutrientes podem
causar efeitos indesejados. Vitaminas lipossolúveis, como A, D, E e K, por
exemplo, são armazenadas no organismo e podem se acumular ao longo do tempo.
Minerais como ferro e zinco também precisam ser utilizados com critério, já que
quantidades elevadas podem gerar desequilíbrios ou interferir na absorção de
outros nutrientes.
Outro ponto importante é que o uso indiscriminado de
suplementos pode mascarar situações que deveriam ser investigadas com mais
atenção. Cansaço persistente, queda de cabelo, alterações de humor ou
dificuldade de concentração, por exemplo, podem estar relacionados a
deficiências nutricionais específicas, mas também a questões hormonais,
metabólicas ou inflamatórias. Tomar um polivitamínico sem avaliar a causa
desses sintomas pode apenas adiar um diagnóstico adequado.
Isso não significa que suplementos não tenham lugar na
promoção da saúde. Em muitos casos, eles são ferramentas importantes quando
utilizados de forma individualizada e com indicação adequada. Gestantes,
idosos, pessoas com restrições alimentares específicas ou com deficiências
comprovadas podem se beneficiar bastante da suplementação orientada.
A diferença está na forma como esses produtos são
utilizados. Em vez de funcionar como um substituto para hábitos alimentares
inadequados, a suplementação deveria entrar como complemento quando realmente
necessário.
A base da saúde nutricional continua sendo a alimentação.
Uma rotina alimentar variada, com presença de alimentos in natura e minimamente
processados, tende a fornecer não apenas vitaminas e minerais, mas também
fibras, compostos bioativos e outras substâncias que atuam de forma integrada
no organismo.
Em outras palavras, nutrientes isolados não conseguem
reproduzir completamente o efeito de uma alimentação equilibrada.
Cuidar da saúde envolve muito mais do que adicionar cápsulas
à rotina. Envolve qualidade alimentar, sono adequado, atividade física, manejo
do estresse e acompanhamento profissional quando necessário.
No fim das contas, a pergunta talvez não seja apenas se um
polivitamínico faz bem ou mal. A reflexão mais importante é outra: será que
estamos tentando compensar com suplementos aquilo que deveria começar no prato?
Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela
UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua
com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre
com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus
textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real.
Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

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