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Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade

Coluna Nutrição Além do Prato

Quando a preocupação também chega à mesa

Em semanas de muitas notícias, discussões e incertezas, é comum percebermos mudanças na maneira como nos sentimos. Algumas pessoas ficam mais ansiosas, outras irritadas, cansadas ou com dificuldade para dormir. Mas existe uma consequência que nem sempre associamos a esses períodos: a maneira como tudo isso pode interferir na nossa alimentação. Afinal, aquilo que acontece ao nosso redor também influencia nossa fome, nossas escolhas e a forma como nos relacionamos com a comida.

Nosso comportamento alimentar é influenciado por diversos fatores, e o estado emocional é um deles. Em situações de estresse, o organismo ativa mecanismos fisiológicos que nos ajudam a responder aos desafios. Entre eles estão a atuação do sistema nervoso autônomo e a liberação de hormônios como adrenalina e cortisol. Essas respostas podem modificar temporariamente o apetite, mas seus efeitos não são iguais para todas as pessoas. Enquanto algumas perdem a vontade de comer, outras percebem um aumento da fome ou uma procura maior por determinados alimentos.

É importante compreender que essas diferenças não acontecem simplesmente por falta de controle. Em situações de estresse agudo, por exemplo, a ativação de determinados mecanismos fisiológicos pode reduzir temporariamente o apetite. Já em contextos de estresse persistente, fatores hormonais, emocionais e comportamentais podem favorecer o aumento da ingestão alimentar em algumas pessoas. A relação é complexa e depende também de experiências anteriores, disponibilidade de alimentos, rotina e características individuais.

Talvez você já tenha percebido isso em algum momento. Depois de um dia particularmente difícil, preparar uma refeição pode parecer trabalhoso demais. Em outras situações, surge uma vontade maior de comer algo específico, mesmo sem uma sensação intensa de fome física. Há também quem passe horas envolvido com preocupações, esqueça de se alimentar e só perceba a fome quando já está exausto. São comportamentos diferentes, mas que mostram como nossas escolhas alimentares não acontecem isoladas daquilo que estamos vivendo.

Outro aspecto importante é a relação entre estresse e sono. Em períodos de maior preocupação, podemos dormir menos ou apresentar uma qualidade de sono inferior. E o descanso insuficiente pode influenciar a regulação do apetite, a percepção de fome e saciedade e a preferência por alimentos mais palatáveis. Além disso, o cansaço pode dificultar tarefas que exigem planejamento e organização, como decidir o que preparar, fazer compras ou manter uma rotina alimentar minimamente estruturada.

Isso ajuda a compreender por que recomendações nutricionais aparentemente simples podem se tornar difíceis em determinados momentos. Planejar refeições, cozinhar, consumir alimentos variados e manter horários regulares exigem recursos que vão além do conhecimento nutricional. Precisamos de tempo, disposição e condições para colocar essas orientações em prática. Quando estamos mentalmente sobrecarregados, até decisões pequenas podem parecer mais difíceis.

Também existe uma dimensão afetiva da alimentação que merece ser reconhecida. A comida pode proporcionar prazer, acolhimento e conforto, e isso faz parte da nossa relação com ela. Buscar um alimento de que gostamos depois de um dia difícil não representa, necessariamente, um comportamento inadequado. A atenção deve estar voltada à frequência, ao contexto e às consequências desse hábito, especialmente quando comer se torna a principal ou única estratégia disponível para lidar com emoções difíceis.

Por outro lado, tentar compensar esses momentos com restrições alimentares rígidas pode aumentar ainda mais o desgaste. Quando interpretamos qualquer mudança no apetite como um problema de disciplina, corremos o risco de ignorar o que realmente está acontecendo. Em vez de responder com culpa ou regras mais severas, pode ser mais útil observar se estamos dormindo adequadamente, fazendo refeições suficientes e encontrando espaço para cuidar de outras necessidades.

Na prática clínica, compreender o contexto emocional e social é fundamental para construir estratégias nutricionais que façam sentido. Uma pessoa que está atravessando um período de preocupação intensa talvez precise, naquele momento, de refeições mais simples, alternativas práticas e uma organização alimentar menos exigente. Isso não significa abandonar os cuidados com a saúde, mas reconhecer que a maneira de cuidar também pode precisar de ajustes.

Em um cenário em que somos constantemente estimulados a acompanhar notícias, reagir a acontecimentos e participar de discussões, vale observar quanto espaço essas demandas estão ocupando na nossa rotina. Estar informado é importante, mas viver permanentemente em alerta pode comprometer aspectos básicos do cuidado, inclusive nossa alimentação.

Afinal, nem sempre uma mudança alimentar começa no prato. Às vezes, ela começa em uma noite mal dormida, em uma preocupação que se prolonga ou em um dia no qual faltou energia até para decidir o que comer. Reconhecer essas relações nos ajuda a olhar para o comportamento alimentar com mais compreensão e a construir estratégias de cuidado que considerem a vida como ela realmente acontece.

Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real. Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

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