Projeto de lei Nicolly Pogere pode ter aumentado ameaças contra a família
Segundo a mãe da adolescente, Priscila Magrin, os ataques virtuais começaram após a repercussão da morte brutal da filha e podem ter ganhado força também com a mobilização em torno da proposta de lei que leva o nome de Nicolly
A operação interestadual deflagrada nesta semana pela Polícia Civil para apurar ameaças contra familiares de Nicolly Fernanda Pogere, adolescente de 15 anos vítima de feminicídio em Hortolândia em 2025, trouxe um novo elemento ao caso: a possibilidade de que a mobilização em torno do projeto de lei que leva o nome da jovem tenha contribuído para intensificar os ataques sofridos pela família.
A avaliação foi feita pela mãe de Nicolly, Priscila Magrin, que relaciona as ameaças tanto à prisão dos adolescentes investigados pela morte da filha quanto à repercussão pública da campanha legislativa. Em declaração à reportagem, Priscila afirmou que as intimidações começaram depois da morte brutal da adolescente e se intensificaram após a apreensão dos dois menores apontados como envolvidos no crime.
Segundo ela, como os adolescentes fariam parte de grupos extremistas,
pessoas ligadas a esses ambientes teriam passado a reagir com raiva e
hostilidade contra a família. A mãe de Nicolly também disse acreditar que a
campanha pela criação da chamada Lei Nicolly Pogere pode ter ajudado a ampliar
a onda de ataques, especialmente depois da repercussão obtida nas redes sociais
e nas publicações sobre o tema.
A mobilização em torno do projeto atingiu forte engajamento
popular. Até 28 de março, a campanha já havia ultrapassado 20 mil assinaturas,
alcançando a meta estabelecida para levar a pauta ao Senado Federal e ampliar a
discussão sobre endurecimento penal e combate à disseminação de conteúdos de
ódio na internet. O avanço da proposta transformou o caso em um debate que vai
além da investigação criminal e passa a envolver mudanças legislativas e
responsabilização digital.
A proposta defendida pela família e apoiadores tem dois eixos principais. O primeiro prevê mudanças penais mais rígidas, com foco em crimes de extrema gravidade, incluindo mecanismos como legislação mais severa, perícias contínuas e restrições mais duras para retorno ao convívio social em determinados casos.
O segundo eixo trata da regulamentação da internet, com
cobrança por responsabilização de plataformas e indivíduos que disseminem
conteúdos de ódio online, além de punições mais severas e alcance também sobre
empresas estrangeiras.
As ameaças investigadas pela Polícia Civil passaram a ser enviadas por redes sociais, e-mails e outras plataformas digitais. De acordo com a apuração, os ataques envolveram ofensas, intimidações e mensagens de deboche dirigidas aos parentes de Nicolly, aumentando ao longo do tempo em frequência e gravidade.
A ofensiva policial desta semana teve como objetivo
apreender celulares, computadores e outros dispositivos que possam ajudar na
identificação dos responsáveis e no avanço das investigações. Duas pessoas
foram presas, sendo uma em Minas Gerais e outra no interior paulista.
A operação foi coordenada pelo Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), ligado à Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, com apoio de equipes policiais de São Paulo, Minas Gerais e Pará. Os mandados judiciais foram cumpridos em Presidente Prudente, Bicas, Belo Horizonte, Ibirité, Juiz de Fora e Ananindeua. O homem de Minas Gerais foi preso após a apreensão de dispositivos eletrônicos com material de abuso sexual infantil. Cinco pessoas são alvos da investigação.
COMOÇÃO
O caso de Nicolly causou forte comoção desde julho de 2025, quando o corpo da adolescente foi encontrado às margens de uma lagoa no bairro Jardim Amanda I, em Hortolândia. A investigação levou à apreensão de dois adolescentes, de 17 e 14 anos, que confessaram participação no crime.
Segundo a
Polícia Civil, o rapaz de 17 anos mantinha relacionamento com a vítima,
enquanto a adolescente de 14 anos também se relacionava com ele. A versão
apresentada pelos dois, de que teriam reagido a uma suposta agressão, é contestada
pela investigação, que sustenta que Nicolly foi atraída até o local do crime.
Desde então, Priscila Magrin transformou o luto em
mobilização pública. Em entrevistas, atos e manifestações, ela passou a
defender a criação da Lei Nicolly Pogere e a cobrar mudanças na legislação,
inclusive para alcançar adolescentes entre 14 e 17 anos envolvidos em crimes
graves.

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