Coluna Olhar de Dentro
A Festa das Nações não deveria ficar apenas na memória de Nova Odessa
Há quase quatro décadas existe um fim de semana em que Nova Odessa tem cheiro e
sabor de comidas do mundo inteiro. A Festa das Nações nasceu em 1987 e, desde
2015, faz parte por lei do Calendário Turístico do Estado de São Paulo, com
previsão de acontecer todo mês de outubro. E neste ano, outubro está
terminando, e a festa não aconteceu.
Desde o início do ano, a Associação das Entidades Assistenciais de Nova Odessa
(AEANO), que reúne as instituições participantes, buscou junto à Prefeitura,
especialmente à Diretoria de Cultura, uma alternativa para a realização da
festa fora do mês de outubro.
A preocupação tinha fundamento: nas últimas edições, as chuvas e tempestades
fizeram com que as entidades não arrecadassem o que era esperado e havia o
receio de que o cenário se repetisse em 2026. O objetivo era chegar, em
conjunto, a uma data que oferecesse melhores condições para receber o público e
garantir a arrecadação das instituições.
Durante as negociações, a festa chegou a ser prevista para os dias 6, 7 e 8 de
novembro, período na época aceito pelas entidades, mas a confirmação ficou
pendente por parte da Prefeitura, sob a justificativa de estarmos em período
eleitoral. Após o primeiro turno, a AEANO, em nome do presidente Sr. Carlos
Pinoti, voltou a procurar os responsáveis. Nesse meio tempo inclusive, as
instituições se atentaram que o evento de Nova Odessa aconteceria
concomitantemente com a Festa das Nações da cidade de Santa Bárbara.
Mesmo assim, seguiram solicitando definições. Foi então realizada uma nova
reunião e neste momento a Prefeitura sugeriu realizar o evento em dezembro,
junto com a Festa do Natal. Após o declínio das entidades, a Prefeitura se
defendeu nas redes sociais, afirmando que não havia cancelado a festa e
defendeu os dias 4, 5 e 6 de dezembro, junto à programação de Natal, citando a
otimização de recursos, a logística, o histórico de chuvas e as orientações da
Defesa Civil.
Para as entidades, porém, esse período também seria inviável: além de coincidir
com as atividades natalinas do comércio, é uma época em que as despesas de fim
de ano pesam no orçamento das famílias, o que pode reduzir o público e
comprometer a arrecadação que sustenta seus projetos.
Eu tenho um carinho especial por essa festa. Nos últimos anos, com o Lions,
estive na barraca dos Estados Unidos, vendo a fila se formar para a costelinha
e os hamburgueres e sabendo que cada prato vendido reverteria em investimentos
para nosso Banco Ortopédico. Cada barraca representa um país e é liderada por
uma instituição, e cada uma delas tem uma história dessas para contar.
Porque a Festa das Nações nunca foi só uma festa.
Para muitas entidades, é a principal arrecadação do segundo semestre. É dali
que sai o dinheiro de atividades, de atendimentos e até do décimo terceiro de
quem trabalha nessas instituições. Quando a festa não acontece, quem perde não
é só a população. É a criança, o idoso que é acolhido, a família que depende
daquele atendimento. Seria muito triste ver que todos sofreriam com as
consequências.
Ninguém quer festa debaixo de temporal, perder investimento que as entidades
nem tem e ainda com risco se segurança para as famílias. É uma festa que exige
muito planejamento. Não pode acontecer de um dia, ou de um mês para o outro. É
preciso lembrar também do principal: a festa existe para as entidades, não é
uma festa com foco em Natal.
Qualquer data que se escolha precisa funcionar para quem depende dela. Senão, a
gente salva o evento e perde o propósito. Afinal o contexto deve atender a
todos, e é primordial considerar, inclusive, o tempo de preparação que um
evento deste porte exige, até para que se consiga voluntários para trabalhar,
para que as entidades eventualmente consigam patrocínios, para que se pense na
decoração, estrutura, e etc.
E aqui eu deixo uma convicção. Quem cuida dos mais necessitados faz, muitas
vezes, uma parte do trabalho que seria do próprio poder público. Apoiar essas
instituições não é favor, é parceria. Por isso, com quem ajuda os que mais
precisam, o poder público deve sempre fazer o possível, sem medir esforços.
Quando há boa vontade dos dois lados, uma data aparece, uma estrutura se
encontra e em uma solução se chega.
Uma tradição que alimenta tanta gente não deveria deixar de acontecer. Mesmo
assim, para 2027 a AEANO já confirmou que a Festa estará de volta.
E a pergunta que eu deixo é para todos nós: o que cada um pode fazer para que
as tradições que sustentam a nossa cidade não dependam apenas de um calendário?
Juçara Rosolen é mãe, cristã, empreendedora, palestrante e escritora. Juçara é
formada em Pedagogia, Letras e Direito. Proprietária e fundadora do Grupo
Aposerv, que há mais de 17 anos se dedica aos serviços previdenciários
administrativos. É ex-presidente da ACINO e atual Presidente do Lions Clube de
Nova Odessa

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