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Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica esportiva e atua na promoção da saúde e qualidade de vida

Coluna Nutrição Além do Prato

Natal: quando a comida é mais do que comida

Natal e Ano Novo não são só datas no calendário. São encontros. Gente reunida, conversa atravessada pela mesa, risada misturada com comida. Muitas vezes nem é sobre o prato, é sobre quem está em volta dele. A comida, nesses dias, vai muito além de nutrir o corpo. Ela carrega memória, afeto, história. Faz parte da troca, da comunhão, do estar junto. E se privar de viver isso em nome de um ideal rígido de saúde não é cuidado. É se ausentar do momento.

Existem comidas que só aparecem no Natal. O peru, a farofa especial, o arroz diferente, o salpicão da família, a sobremesa que só ganha espaço uma vez por ano. Aproveitar essas comidas também faz parte de uma relação saudável com a alimentação, porque saúde não existe fora da vida real, nem fora da cultura, nem fora das relações. Comer é um ato social, e ignorar isso costuma gerar mais culpa do que equilíbrio.

Aproveitar, no entanto, não significa perder o cuidado. Um pouco de organização ajuda, e muito. Chegar à ceia morrendo de fome quase sempre estraga a experiência. O corpo fica ansioso, a escolha vira impulso. Alimentar-se bem ao longo do dia e manter uma boa hidratação muda completamente a noite. Na hora da ceia, montar o primeiro prato de forma equilibrada é uma estratégia simples e eficiente. Um clássico de Natal já funciona bem. Arroz, uma boa porção de peru ou outra proteína, um pouco de farofa, salada com folhas e frutas, um fio de azeite. Esse prato atende a fome real e cria base para escolhas mais conscientes.

Depois que a fome foi atendida, aí sim vale se permitir. Repetir algo que gostou, experimentar outros pratos, comer a sobremesa. Quando o corpo não está em estado de urgência, o exagero perde força. A comida deixa de ser impulso e passa a ser escolha. O álcool também pede atenção. Beber de estômago vazio facilita passar do ponto. Intercalar com água ajuda a manter o ritmo e o bem-estar. O álcool pode acompanhar a celebração, mas não precisa ser o centro dela.

O cuidado continua depois da ceia. Levar grandes quantidades de sobra para casa costuma esticar o excesso por dias, transformando uma exceção pontual em rotina. Também vale lembrar que Natal e Ano Novo não precisam virar um único período de desorganização. O intervalo entre as datas pode ser um respiro. Voltar para uma alimentação simples, garantir bons alimentos, hidratação e algum movimento. Não como punição ou compensação, mas como equilíbrio.

Exceções, quando bem feitas, são muito bem-vindas. Elas fazem parte de uma relação saudável com a comida. Celebrar, comer junto, aproveitar o que é raro também é cuidado. Porque, no fim das contas, saúde não é só o que vai no prato. É como a gente vive esses momentos.

Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica esportiva, formada pela UNICAMP (Universidade de Campinas) e com pós-graduação pela USP (Universidade de São Paulo). Atua com foco na promoção da saúde e qualidade de vida, melhora da composição corporal e da performance esportiva. Por meio de uma nutrição com propósito, respaldada na ciência, busca promover autonomia alimentar com estratégias individualizadas, eficazes e sustentáveis. Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.


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