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Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade

Coluna Nutrição Além do Prato

Funcionou para mim. Mas isso prova alguma coisa?

“Eu comecei a tomar e minhas dores melhoraram.” “Cortei o glúten e nunca mais senti aquele desconforto.” “Minha amiga fez essa dieta, emagreceu e está ótima.” Quem nunca ouviu alguma dessas histórias? E, convenhamos, é muito mais fácil se interessar por algo quando conhecemos alguém que experimentou e garante que funcionou. Principalmente quando essa pessoa é próxima ou alguém em quem confiamos.

A questão é que existe uma diferença importante entre perceber uma melhora e saber exatamente o que provocou essa melhora. Uma pessoa pode estar sendo absolutamente sincera ao contar sua experiência e, ainda assim, não ter condições de identificar o que realmente produziu aquele resultado. Isso não significa que esteja mentindo ou que aquilo que sentiu não seja verdadeiro. Significa apenas que uma experiência individual, por si só, não consegue responder a todas as perguntas.

Pense em alguém que começa a tomar um suplemento para melhorar a disposição. Na mesma época, essa pessoa passa a dormir mais cedo, organiza melhor a alimentação e retoma os exercícios. Algumas semanas depois, sente mais energia e atribui o resultado ao suplemento. É possível que ele tenha contribuído? Dependendo do produto e das circunstâncias, sim. Mas também é possível que a melhora esteja relacionada às outras mudanças, à combinação delas ou até a fatores que a pessoa não percebeu. Sem uma comparação adequada, não conseguimos separar essas possibilidades.

É justamente para investigar questões como essa que a ciência utiliza métodos de pesquisa. Estudos bem conduzidos procuram comparar grupos, controlar fatores que possam interferir nos resultados e avaliar se determinada intervenção realmente produz o efeito esperado. Em ensaios clínicos, por exemplo, a distribuição aleatória dos participantes entre os grupos ajuda a reduzir diferenças que poderiam distorcer a comparação. Isso não significa que um estudo isolado ofereça uma resposta definitiva, mas que existem maneiras mais confiáveis de investigar relações de causa e efeito do que observar apenas o que aconteceu com uma pessoa.

E há outro detalhe interessante: nosso organismo não permanece exatamente igual ao longo do tempo. Sintomas podem oscilar, melhorar espontaneamente ou responder a mudanças que acontecem simultaneamente. Além disso, nossas expectativas também podem influenciar a percepção de determinados resultados, fenômeno estudado nas pesquisas sobre efeito placebo. Nada disso torna a experiência menos legítima, mas ajuda a explicar por que sentir uma melhora não significa necessariamente ter identificado sua causa.

Na nutrição, essa distinção é especialmente importante. É comum encontrarmos relatos de pessoas que eliminaram um alimento e passaram a se sentir melhor. Em algumas situações, essa mudança pode realmente estar relacionada a uma condição clínica ou a uma sensibilidade individual. Em outras, o resultado pode ter ocorrido porque a pessoa modificou várias características da alimentação ao mesmo tempo. Retirar o pão, por exemplo, pode significar também mudar o café da manhã, reduzir determinados acompanhamentos ou reorganizar horários e quantidades.

Atribuir toda a diferença a um único alimento pode ser uma conclusão precipitada.

O problema se amplia quando essas experiências passam a circular como recomendações. Uma história pessoal pode despertar curiosidade, incentivar alguém a buscar ajuda ou levantar perguntas interessantes para a pesquisa. Mas, quando vira uma regra para todos, deixa de considerar diferenças individuais, condições de saúde e até possíveis riscos. Aquilo que foi útil para uma pessoa pode não produzir o mesmo efeito em outra, e isso não significa necessariamente que alguma delas esteja fazendo algo errado.

Também é importante reconhecer que a ciência não tem respostas definitivas para tudo. O conhecimento científico é construído, revisado e aprimorado conforme novas evidências aparecem. Existem perguntas ainda pouco investigadas, resultados contraditórios e situações em que a experiência clínica e as preferências individuais precisam participar das decisões. A diferença é que reconhecer essas limitações não nos autoriza a tratar qualquer relato como comprovação.

Acredito que uma das contribuições mais importantes da educação em saúde seja justamente ajudar as pessoas a desenvolver esse olhar. Não precisamos desconfiar de tudo o que alguém conta, muito menos desconsiderar experiências pessoais. Podemos escutá-las com interesse e, ao mesmo tempo, compreender que uma boa história não substitui uma investigação cuidadosa.

Na prática, quando alguém diz que determinada estratégia funcionou, vale entender o que mudou, quais eram as condições daquela pessoa e que outras explicações podem existir. Isso não diminui o valor da experiência. Pelo contrário, permite interpretá-la com mais responsabilidade e aproveitar aquilo que ela pode nos ensinar, sem tirar conclusões maiores do que os fatos permitem.

A ciência não existe para invalidar o que as pessoas vivem. Ela nos ajuda a investigar por que as coisas acontecem, distinguir coincidências de relações causais e tomar decisões com menos dependência de impressões individuais. E, em um momento em que tantas recomendações de saúde são sustentadas por histórias convincentes, aprender a fazer essa distinção também é uma forma de desenvolver autonomia.

Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real. Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

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