Coluna Nutrição Além do Prato
Queimar mais gordura durante o treino não significa emagrecer mais
“Treinar em jejum faz o corpo queimar mais gordura.” Essa é
uma afirmação bastante comum em academias e nas redes sociais e, curiosamente,
existe uma parte verdadeira nela. O problema aparece quando uma resposta
fisiológica real é utilizada para chegar a uma conclusão que não
necessariamente é verdadeira: se estou utilizando mais gordura durante o
exercício, então vou emagrecer mais.
Nosso corpo utiliza diferentes fontes de energia para
sustentar o exercício, principalmente carboidratos e gorduras. A participação
de cada uma varia conforme fatores como intensidade e duração do treino,
alimentação, nível de treinamento e disponibilidade de energia. Em determinadas
condições, como após algumas horas sem comer, a disponibilidade de carboidratos
e o ambiente hormonal favorecem uma maior participação da gordura como
combustível. Portanto, em muitos exercícios realizados em jejum, especialmente
em intensidades baixas ou moderadas, realmente podemos observar maior oxidação
de gordura durante aquela sessão.
Mas aqui está a diferença fundamental: usar mais gordura
como combustível naquele momento não significa necessariamente perder mais
gordura corporal ao longo do tempo. O organismo não encerra suas contas quando
o treino termina. Ao longo das horas seguintes, continuamos armazenando e
utilizando carboidratos e gorduras de acordo com aquilo que comemos, gastamos e
fazemos durante todo o dia. Por isso, quando o objetivo é emagrecimento, o
balanço energético ao longo do tempo e a capacidade de manter uma estratégia
alimentar adequada têm muito mais importância do que tentar maximizar a
utilização de gordura durante uma hora específica do dia.
Quando estudos comparam exercício realizado em jejum ou após
alimentação e controlam fatores importantes, a maior oxidação de gordura
durante a sessão em jejum não se traduz necessariamente em maior perda de
gordura corporal ao longo das semanas. Essa distinção é importante porque
mostra como um mecanismo fisiológico pode ser verdadeiro e, ainda assim, ser
utilizado de maneira equivocada para vender uma conclusão muito maior do que a
evidência permite.
Existe ainda outra questão que costuma ficar esquecida nessa
discussão: performance. Conforme a intensidade do exercício aumenta, o
carboidrato passa a ter um papel cada vez mais importante na produção rápida de
energia. Isso é especialmente relevante em atividades que exigem velocidade,
potência ou esforços intensos e repetidos, como corrida em ritmos mais altos,
musculação, CrossFit, futebol, vôlei e lutas. Nesses contextos, começar
determinados treinos com baixa disponibilidade de carboidratos pode comprometer
a capacidade de sustentar intensidade, volume ou qualidade do treinamento.
Isso significa que ninguém deveria treinar em jejum? Também
não. Algumas pessoas se sentem bem realizando sessões leves sem comer antes,
seja por preferência, conforto gastrointestinal ou organização da rotina. No
esporte, estratégias de treinamento com baixa disponibilidade de carboidratos
também podem ser utilizadas de maneira planejada em situações específicas,
buscando determinadas adaptações metabólicas. Mas existe uma enorme diferença
entre uma estratégia periodizada, aplicada com objetivo definido, e
simplesmente retirar o alimento antes do exercício acreditando que isso fará o
corpo eliminar mais gordura.
Talvez parte da confusão aconteça porque usamos a expressão
“queimar gordura” para falar de fenômenos diferentes. Uma coisa é a gordura
sendo utilizada como combustível naquele momento. Outra é reduzir os estoques
de gordura corporal ao longo de semanas ou meses. E uma terceira questão é
produzir o melhor desempenho possível durante o exercício. As três coisas se
relacionam, mas não são sinônimos.
Por isso, antes de perguntar se é melhor treinar em jejum ou
alimentado, existe uma pergunta mais importante: qual é o objetivo daquele
treino? Uma caminhada leve pela manhã, um treino longo de corrida, uma sessão
intensa de musculação e uma luta de jiu-jitsu impõem demandas completamente
diferentes ao organismo. A estratégia nutricional também deveria acompanhar
essas diferenças.
Seu corpo usar mais gordura durante um exercício é apenas
uma informação sobre qual combustível está sendo utilizado com maior
participação naquele momento. Não é uma medida de quanto você vai emagrecer e
muito menos de quão eficiente foi o seu treino. Quando alimentação e exercício
são pensados em conjunto, o objetivo deixa de ser simplesmente “queimar mais
gordura” e passa a ser oferecer ao corpo o combustível adequado para aquilo que
queremos que ele seja capaz de fazer.
Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela
UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua
com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre
com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus
textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real.
Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

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