Coluna Nutrição Além do Prato
Creatina depois dos 40: o que ela realmente pode fazer por você?
Durante muito tempo, creatina parecia assunto de academia.
Era o suplemento de quem queria levantar mais peso, ganhar massa muscular ou
melhorar o desempenho no treino. Nos últimos anos, porém, ela mudou de lugar.
Passou a aparecer nas conversas sobre menopausa, envelhecimento saudável,
memória, saúde óssea, cérebro e até longevidade. De repente, um dos suplementos
mais conhecidos do esporte começou a ser apresentado quase como item
obrigatório depois dos 40.
Existe bastante ciência por trás da creatina. Mas nem tudo o
que hoje se atribui a ela tem o mesmo respaldo científico.
A creatina é uma substância que nosso próprio organismo
produz e que também obtemos pela alimentação, principalmente através de carnes
e peixes. A maior parte fica armazenada nos músculos, onde participa de um
sistema que ajuda a disponibilizar energia rapidamente para as células. É
justamente por isso que seus efeitos são tão conhecidos em atividades que
exigem força, potência e esforços intensos e repetidos.
Aqui entramos no terreno em que a ciência é mais sólida. A
creatina monohidratada é um dos suplementos mais estudados na nutrição
esportiva. Há boa evidência de que pode melhorar força e desempenho em
exercícios de alta intensidade e, quando associada ao treinamento de força,
favorecer ganhos de massa magra. Estudos e revisões recentes continuam
sustentando esses benefícios.
Mas por que, então, estamos falando tanto dela depois dos
40?
Não porque exista uma mudança repentina no organismo no
aniversário de 40 anos. O que acontece é que, à medida que envelhecemos,
preservar músculo e força se torna progressivamente mais importante. E essa
conversa deveria começar muito antes da velhice.
Músculo não serve apenas para definir o corpo ou levantar
peso na academia. É ele que participa da nossa capacidade de levantar de uma
cadeira, subir escadas, carregar compras, brincar com os filhos e, mais tarde,
com os netos, praticar esportes, manter equilíbrio e preservar independência.
Construir e conservar essa reserva física ao longo da vida é uma das partes
importantes de envelhecer com autonomia.
Nesse cenário, a creatina pode ser uma ferramenta
interessante. Em adultos mais velhos, estudos mostram benefícios principalmente
quando ela aparece junto ao treinamento resistido, potencializando algumas
adaptações de força e massa magra. Uma meta-análise recente voltou a encontrar
benefícios dessa combinação, embora os resultados variem entre os diferentes
desfechos estudados.
E existe uma palavra importante aqui: junto.
Creatina não substitui musculação. Não substitui uma
ingestão adequada de proteínas. Não compensa uma alimentação insuficiente e
muito menos reproduz sozinha os efeitos de um corpo que recebe estímulo para
continuar forte. Ela pode melhorar a estratégia, mas não deveria receber o
protagonismo daquilo que o treinamento constrói.
O assunto fica ainda mais interessante quando saímos do
músculo e chegamos ao cérebro.
O cérebro também utiliza creatina em seu metabolismo
energético, e há pesquisas investigando possíveis efeitos da suplementação
sobre memória, atenção e velocidade de processamento. Algumas meta-análises
encontraram resultados positivos, principalmente para memória e alguns aspectos
da atenção e do processamento de informações. Mas a evidência aqui ainda é bem
menos consistente do que aquela que temos para força e desempenho. Existem
inclusive revisões chegando a conclusões mais cautelosas sobre a magnitude
desses benefícios.
Portanto, dizer que a creatina pode ter efeitos
interessantes sobre a cognição é compatível com o que sabemos hoje. Dizer que
ela previne Alzheimer, evita demência ou funciona como uma espécie de “protetor
cerebral” já é ir além da evidência disponível.
Com os ossos acontece algo parecido. A creatina passou a ser
muito mencionada para mulheres na menopausa e para prevenção da perda óssea. É
uma hipótese interessante e existem estudos investigando esse efeito, mas
análises recentes não mostram benefício consistente sobre a densidade mineral
óssea. Hoje, não podemos colocar creatina no mesmo lugar de estratégias
realmente estabelecidas para prevenção e tratamento de osteopenia e
osteoporose.
E esse talvez seja um bom exercício para qualquer suplemento
que se torna popular: separar aquilo que já sabemos daquilo que ainda estamos
tentando descobrir.
Hoje temos evidência consistente para desempenho em
exercícios intensos, força e suporte às adaptações musculares, especialmente
junto ao treinamento. Temos resultados promissores, mas ainda não definitivos,
para algumas funções cognitivas. Para saúde óssea, prevenção de demência,
emagrecimento e uma série de promessas relacionadas à “longevidade”, a história
ainda não permite as mesmas afirmações.
Outro mito antigo também merece ser colocado em perspectiva:
o de que creatina necessariamente prejudica os rins.
Revisões recentes encontraram algo importante. A
suplementação pode provocar uma pequena elevação da creatinina no exame de
sangue. Como a creatinina é utilizada rotineiramente para estimar a função
renal, esse resultado pode gerar preocupação. Mas essa alteração pode estar
relacionada ao próprio metabolismo da creatina e não significa automaticamente
que os rins estejam sendo lesionados. Quando outros parâmetros de função renal
são considerados, o conjunto das evidências em pessoas saudáveis não sustenta a
ideia de que o uso habitual de creatina nas doses estudadas provoque dano
renal. Pessoas com doença renal ou condições clínicas específicas,
evidentemente, precisam de avaliação individual.
Talvez a creatina esteja vivendo uma transformação curiosa.
Durante anos, seus benefícios foram subestimados porque ela carregava a imagem
de “suplemento de academia”. Agora corremos o risco contrário: atribuir a ela
benefícios para praticamente tudo.
Nem uma coisa, nem outra.
A creatina monohidratada é barata, amplamente estudada e tem
aplicações muito interessantes. Depois dos 40, pode fazer ainda mais sentido
pensar nela dentro de uma estratégia de preservação de força, massa muscular e
capacidade funcional.
Mas isso é muito diferente de transformá-la em um suplemento
antienvelhecimento.
Talvez a pergunta mais importante depois dos 40 nem seja “eu
deveria tomar creatina?”. Antes dela, deveriam vir outras: estou treinando
força? Estou consumindo proteína suficiente? Estou me mantendo fisicamente
ativo? Estou construindo hoje o corpo que quero que continue me dando autonomia
daqui a vinte ou trinta anos?
Se a creatina entrar nessa estratégia, ótimo. Há ciência para sustentar seu uso. Mas nenhum suplemento deveria receber o mérito pelo trabalho que ainda precisa ser feito pelo corpo.
Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela
UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua
com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre
com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus
textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real.
Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

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