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Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade

Coluna Nutrição Além do Prato

Nutrição para além da informação

Nunca tivemos tanto acesso a informações sobre alimentação. Todos os dias surgem novos estudos, recomendações, vídeos e conteúdos ensinando o que comer, o que evitar e como melhorar a saúde. Mas, diante de tanta informação disponível, existe uma questão que considero importante: será que estamos conseguindo fazer com que esse conhecimento chegue às pessoas de uma forma que elas realmente compreendam e consigam utilizar? 

Imagine alguém que recebe a orientação de aumentar o consumo de fibras, melhorar a qualidade dos carboidratos ou distribuir melhor as proteínas ao longo do dia. Tecnicamente, essas recomendações podem estar corretas, mas o que elas significam na prática? Quais alimentos essa pessoa poderia escolher? Como organizá-los nas refeições? E, principalmente, como fazer isso considerando o dinheiro disponível, a rotina de trabalho, os hábitos da família e os alimentos aos quais ela tem acesso? É nesse espaço entre receber uma informação e conseguir utilizá-la que a educação alimentar e nutricional se torna tão importante. 

Educar em nutrição vai muito além de ensinar quais alimentos são fontes de determinados nutrientes ou entregar uma lista do que deve ser consumido. Envolve compreender a realidade de quem está recebendo aquela orientação, reconhecer seus conhecimentos, suas dificuldades e construir possibilidades de mudança. O próprio Marco de Referência de Educação Alimentar e Nutricional para as Políticas Públicas, publicado no Brasil em 2012, reconhece a importância do diálogo, da valorização da cultura alimentar e da construção da autonomia. Não se trata, portanto, de simplesmente transmitir conhecimento, mas de permitir que as pessoas participem das decisões sobre sua alimentação de maneira mais consciente. 

E aqui existe uma responsabilidade importante para nós, profissionais da saúde. Dominar um assunto não significa necessariamente saber comunicá-lo. Podemos compreender profundamente os mecanismos fisiológicos, acompanhar as pesquisas mais recentes e utilizar recomendações cientificamente fundamentadas, mas, se não conseguimos traduzir esse conhecimento para a realidade das pessoas, parte do nosso trabalho perde seu alcance. Isso não significa simplificar a ciência a ponto de distorcê-la, eliminar suas particularidades ou transformar recomendações complexas em regras universais. Significa conseguir explicar o que realmente importa, com clareza e responsabilidade, sem exigir que alguém tenha formação na área para compreender o que estamos dizendo. 

Também precisamos reconhecer que entender uma orientação não garante ter condições de colocá-la em prática. O Guia Alimentar para a População Brasileira considera obstáculos como custo, disponibilidade de alimentos, tempo, habilidades culinárias e acesso à informação. Uma pessoa pode compreender perfeitamente a importância de melhorar sua alimentação e ainda enfrentar dificuldades concretas para fazer isso. Por essa razão, orientar sem conhecer a realidade de quem escuta pode produzir recomendações corretas do ponto de vista científico, mas pouco úteis no cotidiano. 

Essa reflexão se torna ainda mais necessária quando pensamos na maneira como a nutrição é comunicada atualmente. Nas redes sociais, informações científicas disputam espaço com opiniões, experiências pessoais, publicidade e promessas de resultados rápidos. Muitas vezes, aquilo que parece mais simples e convincente não é necessariamente o mais correto. Por outro lado, conteúdos excessivamente técnicos também podem afastar quem não está familiarizado com determinados conceitos. Encontrar um equilíbrio entre acessibilidade e rigor científico é um desafio que exige estudo, responsabilidade e disposição para dialogar. 

Na minha prática profissional, tanto nos atendimentos quanto no ensino, considero que uma das partes mais importantes do trabalho é conseguir fazer com que o conhecimento tenha sentido para quem o recebe. Explicar por que determinada mudança pode ser importante, ouvir as dificuldades, discutir alternativas e permitir que a pessoa compreenda suas próprias escolhas faz muito mais sentido do que esperar que ela apenas reproduza uma orientação. Afinal, o objetivo da educação alimentar e nutricional não deveria ser criar pessoas dependentes de regras, mas contribuir para que desenvolvam conhecimento e autonomia ao longo da vida. 

Falar sobre alimentação de forma acessível também é uma maneira de ampliar o alcance da promoção da saúde. Isso envolve escolas, serviços públicos, espaços comunitários, meios de comunicação e todos os ambientes em que o conhecimento pode circular. A informação, sozinha, não resolve as desigualdades que interferem na alimentação, mas sua ausência ou a dificuldade de compreendê-la pode representar mais uma barreira. 

A ciência da nutrição precisa continuar avançando, assim como nós, profissionais, precisamos continuar estudando e aprimorando nossas práticas. Mas esse compromisso também deveria incluir a maneira como compartilhamos aquilo que aprendemos. Porque produzir conhecimento é fundamental, mas conseguir transformá-lo em algo compreensível, útil e próximo da realidade das pessoas também faz parte do cuidado. E uma educação alimentar e nutricional verdadeiramente acessível não deveria ser um diferencial reservado a alguns espaços, mas um compromisso com a saúde de toda a população.

Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real. Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.


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