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Marina Rocha Luciano atua com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida

Coluna Nutrição Além do Prato

O problema dos termogênicos não é o que eles fazem.

É o que prometem fazer

Quem nunca viu uma propaganda prometendo acelerar o metabolismo, aumentar a queima de gordura e potencializar o emagrecimento? Basta chegar o verão ou surgir a vontade de perder peso para que os termogênicos voltem aos holofotes. Eles aparecem como a solução capaz de transformar resultados e encurtar caminhos. Mas será que o efeito real acompanha tudo aquilo que o marketing promete?

Antes de responder essa pergunta, é importante entender que “termogênico” não é uma substância única. Existem diferentes compostos utilizados com esse objetivo, sendo a cafeína aquele com maior respaldo científico. Ela pode, de fato, aumentar temporariamente o estado de alerta, reduzir a percepção de esforço durante o exercício e promover um discreto aumento do gasto energético. A palavra mais importante dessa frase, porém, é “discreto”. Embora esse efeito exista, ele costuma ser muito menor do que a maioria das pessoas imagina e, com o uso frequente, tende a diminuir devido ao desenvolvimento de tolerância.

Isso significa que termogênicos não funcionam? Não exatamente. A ciência mostra que alguns deles podem exercer efeitos fisiológicos mensuráveis. O problema é que esses efeitos, isoladamente, estão longe de justificar as promessas de emagrecimento acelerado frequentemente utilizadas nas campanhas de divulgação. Na prática, a maior parte da perda de gordura continua dependendo de fatores muito mais relevantes, como alimentação, nível de atividade física, sono, manejo do estresse e consistência ao longo do tempo.

Existe ainda um aspecto que recebe pouca atenção e que talvez seja o mais importante de todos: o impacto comportamental. Quando uma pessoa acredita que uma cápsula será responsável pelos resultados, é natural que ela passe a atribuir menos importância aos hábitos que realmente determinam o sucesso do tratamento. Aos poucos, a alimentação deixa de ser prioridade, o planejamento perde espaço e a expectativa se concentra em um recurso que deveria ocupar apenas um papel complementar.

Também é importante lembrar que suplementos termogênicos não são isentos de riscos. Dependendo da composição, da dose utilizada e da sensibilidade individual, podem provocar palpitações, aumento da frequência cardíaca, ansiedade, tremores, insônia e desconfortos gastrointestinais. Em pessoas com doenças cardiovasculares, hipertensão não controlada ou outras condições clínicas, o uso sem avaliação profissional pode representar riscos importantes. O fato de um produto ser vendido como suplemento não significa, automaticamente, que seja indicado para qualquer pessoa.

Outro ponto que merece reflexão é a forma como esses produtos costumam ser divulgados. Expressões como “acelera o metabolismo”, “queima gordura” ou “seca barriga” simplificam um processo extremamente complexo. O metabolismo humano não funciona como um interruptor que pode ser ligado ou desligado por uma única substância. O emagrecimento é resultado de uma série de adaptações fisiológicas e comportamentais que acontecem de maneira integrada, e não de um único mecanismo isolado.

Talvez a pergunta mais importante não seja se um termogênico funciona, mas se ele faz diferença suficiente para ocupar o protagonismo que muitas vezes recebe. Para a maioria das pessoas, investir em uma alimentação adequada, manter uma rotina de atividade física, dormir melhor e construir hábitos consistentes produzirá um impacto muito maior do que qualquer aumento modesto no gasto energético promovido por um suplemento.

A ciência não mostra que termogênicos são milagres. Mostra que, quando existe indicação, eles podem funcionar como uma ferramenta complementar dentro de um planejamento muito maior. E talvez essa seja a principal mensagem: nenhuma cápsula é capaz de compensar a ausência dos pilares que realmente sustentam a saúde e o emagrecimento.

Porque, no fim das contas, o problema dos termogênicos não é o que eles fazem. É o que prometem fazer.

Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real. Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

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